A Primeira Palavra

Minha mãe adora contar essa história como quem prova, com um sorriso, que o mundo já nasci querendo consertar. Eu tinha quatro anos, mal sabia segurar o lápis, e, enquanto outras crianças desenhavam nuvens ou rabiscavam o próprio nome, eu escrevia “paz”.

Não “mamãe”. Não “papai”. Paz.

Dizem que a primeira palavra escrita da gente é como um presságio, um desejo que a alma larga no papel antes mesmo de a gente saber falar direito. E lá estava eu, toda concentrada, enchendo os céus dos meus desenhos com letras tortas e ansiosas. O sol tinha um sorriso, as nuvens eram de algodão-doce, e, ao lado de tudo isso, lá estava: paz. Assim mesmo, com uma insistência de quem mal entende o significado, mas já sabe que aquilo é importante.

Naquele tempo, paz era só uma palavra bonita, uma coisa que combinava com arco-íris e passarinhos. Mas, com o tempo, ela foi virando outra coisa. Foi virando um ideal, uma promessa que sempre parecia estar logo ali na próxima curva, mas nunca na minha mão.

A vida, claro, tratou de mostrar que paz não é cenário de desenho infantil. Não é céu azul nem sol sorridente. Paz é o som que o silêncio faz quando você sobrevive. É o abraço depois da briga, o café quente num dia frio, o barulho das ondas quando a cabeça está cheia. Paz, descobri, é algo que dói buscar porque, às vezes, ela vem misturada com um pouco de cansaço, um pouco de saudade.

Hoje, penso nos meus desenhos de criança como um mapa. Um jeito meio torto de me lembrar, lá na frente, que minha busca sempre foi essa. Não um sonho grande, um carro chique ou um destino paradisíaco. Não. Só paz. Uma palavra pequena, mas que pesa como uma mala cheia de coisas que você insiste em levar.

Talvez seja isso. Talvez, lá no fundo, a gente sempre soube o que estava procurando. Só que, na pressa de crescer, esquece. E você? Qual foi a sua primeira palavra? Aquele rabisco desajeitado que, se olhar direito, ainda é o que move os seus dias?

Publicado por Bruna Monma

Escritora e criadora de projetos autorais. Escrevo crônicas, reflexões e narrativas sobre identidade, tempo e o que não cabe em legendas. Acredito na palavra como forma de presença.

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