O grilo, o destino e nossa mania de ver sinais em tudo

Outro dia, um grilo entrou na minha casa. Pequeno, esverdeado, pulando sem rumo aparente. Mas, na minha cabeça, ele não estava ali por acaso.

Eu fiquei olhando pra ele. Ele ficou olhando pra mim.

E eu, claro, já comecei: O que isso significa? Será que é um aviso? Um presságio? Um sinal do universo?

Peguei o celular. “Significado espiritual de grilo em casa.”

E lá estava: sorte, transformação, crescimento pessoal. Bom sinal. Respirei aliviada. Mas continuei rolando a tela (porque a gente nunca para na primeira resposta) e encontrei um outro site dizendo que pode ser um mau presságio. Algo prestes a mudar. Aí já comecei a suar frio.

E essa sou eu. Essa pode ser você também.

Porque acontece o tempo todo. Se vejo um número repetido no relógio, acho que é o universo piscando pra mim. Se um passarinho pousa na minha janela, penso em quem já se foi. Se sonho com mar, me pergunto se é um chamado para viajar ou um alerta de mudanças.

Nosso cérebro não aceita o acaso. A gente precisa encontrar explicações, conectar os pontos, encaixar tudo numa narrativa que faça sentido.

Mas e se for só um truque da mente?

Na ciência, isso se chama apofenia — nossa tendência a enxergar padrões em eventos aleatórios. É por isso que vemos rostos em tomadas, figuras em nuvens e acreditamos que uma música ao contrário tem uma mensagem escondida. Já na psicologia, Carl Jung chamou isso de sincronicidade: a ideia de que coincidências podem ser, na verdade, conexões significativas.

E aí eu me pergunto: os sinais realmente existem, ou somos nós que decidimos enxergá-los?

Porque, no fundo, pode não ser sobre o grilo, os números repetidos ou o pássaro na janela. Pode ser sobre nossa dificuldade de sustentar as próprias escolhas.

É muito mais fácil acreditar que o universo está nos guiando do que admitir que a gente só quer tomar uma decisão e precisa de uma desculpa. Se eu penso em mudar de cidade e vejo uma borboleta pousando na minha mala, digo: “É um sinal! O destino está me mandando ir.” Mas e se essa mesma borboleta aparecesse enquanto eu pensava em ficar? Eu veria como um sinal para ficar?

A verdade é que os sinais só têm o peso que a gente dá. E talvez o verdadeiro sinal seja o que já sentimos aqui dentro.

O grilo, coitado, seguiu sua vida. Pulou para debaixo do sofá e sumiu. Sem grandes revelações cósmicas, sem nenhuma epifania estrondosa. Mas ficou ali, dentro de mim, como ficam todas as coisas que nos fazem questionar.

E você? Quantas vezes já esperou um sinal para tomar uma decisão que, no fundo, já sabia a resposta?

Publicado por Bruna Monma

Escritora e criadora de projetos autorais. Escrevo crônicas, reflexões e narrativas sobre identidade, tempo e o que não cabe em legendas. Acredito na palavra como forma de presença.

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