Já escolheu uma roupa só pelo que queria sentir?

Tem dias em que a gente escolhe uma roupa pelo espelho. E tem dias em que a gente escolhe uma roupa pelo peito.

Porque não é só tecido, corte e caimento. É uma armadura, um grito, um abraço ou uma tentativa frustrada de se esconder do mundo.

Tem dias em que eu quero ser notada. Então coloco aquela calça que me deixa com cara de CEO da minha própria vida, mesmo que, por dentro, eu esteja me sentindo uma estagiária emocional. Mas tem dias em que só quero ser uma figurante no cenário da existência, e aí puxo o jeans surrado de mil anos atrás, aquele que me faz lembrar que já fui outra versão de mim mesma e, por algum motivo, ainda insisto em carregar essa versão no armário.

Porque roupa não é só sobre o que a gente veste. É sobre o que a gente sente.

Já percebeu que algumas roupas têm cheiro de memória? Como aquele vestido de formatura, que já não faz parte da minha vida mas, de alguma forma, ainda faz. Foi o auge da juventude, da liberdade, do frio na barriga. Está ali no guarda-roupa como uma cápsula do tempo, sem nenhuma utilidade real além de me lembrar quem eu fui e, talvez, quem eu ainda quero ser um pouco.

E tem aquela calça cara que não me serve mais. Mas não dou embora. Porque, de alguma forma, ela ainda me serve. Como lembrança, como última peça de um passado que eu não sei se quero soltar completamente.

Por outro lado, também tem aquelas roupas que se encharcaram de sentimentos ruins. A blusa que eu usava num dia péssimo, a calça que esteve comigo em um momento que eu preferia apagar. Guardo? Não sei. Mas se um dia eu usei as duas juntas e me senti mal, nunca mais repito a combinação. Não sei explicar, mas é como se a energia daquele dia ficasse presa ali, como um lembrete silencioso de que certas misturas simplesmente não funcionam.

Porque no fundo é isso: a gente não veste só roupas. A gente veste histórias. Escolhas. Emoções.

E às vezes, a pior parte não é abrir o guarda-roupa e não ter o que vestir. É abrir o guarda-roupa e perceber que nenhuma roupa combina com o que a gente está sentindo.

E aí começa o dilema: se eu não sei o que vestir, será que na verdade eu não sei o que estou sentindo? Será que estou emocionalmente desorganizada ou só precisando de um stylist? Quem sabe meu mapa astral não resolveria essa bagunça melhor do que a Marie Kondo.

No fim, coloco qualquer coisa e saio assim mesmo, torcendo para que ninguém perceba que estou mais confusa por dentro do que por fora. Mas e se perceberem? Bom, pelo menos a minha roupa vai contar uma história. Mesmo que seja a de alguém que claramente desistiu no meio do processo.

E você? Já se pegou olhando para o guarda-roupa esperando que ele te dissesse quem você é naquele dia?

Publicado por Bruna Monma

Escritora e criadora de projetos autorais. Escrevo crônicas, reflexões e narrativas sobre identidade, tempo e o que não cabe em legendas. Acredito na palavra como forma de presença.

4 comentários em “Já escolheu uma roupa só pelo que queria sentir?

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