
Ninguém ensina a lidar com a ausência. A morte, ao menos, tem um ritual, um desfecho, um ponto final ainda que doloroso. Mas o desaparecimento não. Ele é um vácuo onde as perguntas ecoam sem resposta, um labirinto sem saída, um relógio que nunca chega à hora certa.
O filme Ainda Estou Aqui traduz essa angústia de forma crua. O sumiço de Rubens não é apenas a sua ausência, mas a presença sufocante da dúvida. O que aconteceu? Por quê? Onde ele está? Perguntas que se tornam tão pesadas quanto a certeza da perda. Mas essa certeza nunca vem, e é isso que faz tudo ser ainda mais insuportável.
O que sabemos sobre Rubens? Pouco. O filme nos deixa essa lacuna como um reflexo da própria realidade: há um vazio no meio da história, exatamente como há na vida de sua família. Mas esse vazio incomoda. Porque, no fundo, queremos entender, queremos encontrar um culpado, queremos uma narrativa com começo, meio e fim. Queremos dar sentido ao que parece não ter.
E enquanto tudo se torna cinza, enquanto o peso da incerteza consome cada cena, há uma voz que se sobrepõe: Erasmo Carlos. A música, inesperada, surge como um fio de luz entre tanta sombra. Uma descoberta dentro de uma perda. Como se a melodia dissesse que, apesar de tudo, apesar de todos os desencontros e silêncios, algo sempre fica.
As atuações das Fernandas, aliás, são quase um grito dentro desse abismo. É a dor encarnada, a impotência de quem quer se agarrar a uma memória, a um nome, a um fio de esperança que talvez nunca existiu. É essa entrega que nos faz sentir junto. Que nos faz sair do filme ainda tentando entender.
E no final, o que resta? O silêncio, a incerteza, a falta. Mas também a prova de que, enquanto alguém se lembrar, ninguém desaparece por completo. Afinal, ainda estou aqui. E se não estivesse?