O Vício da Autoridade


Talvez a gente ache que vive num mundo moderno, racional e emancipado. Mas e se, no fundo, ainda estivermos presos às velhas estruturas de poder que tanto criticamos? Esta é uma daquelas perguntas que cutucam e incomodam. Entre padres, juízes, presidentes e coaches, o que realmente buscamos? Ordem ou conforto? Liberdade ou um pai que diga o que fazer?

De longe, parece que não precisamos mais deles. Dos padres, dos papas, dos reis, dos juízes de toga, dos presidentes em palanque. Estamos modernos, conectados, autônomos. Cada um se vira como pode — ou, ao menos, finge.

Mas, se for olhar de perto — desses olhares que a gente desvia quando sente — talvez ainda estejamos todos de joelhos, esperando, feito crianças, que alguém nos diga o que fazer.

A hierarquia não é só uma palavra perdida nos livros de história ou nas missas de domingo. Ela mora na pele, no modo automático de atravessar a rua quando o guarda manda, no aperto que dá diante de um terno caro, de um crachá dourado, de um “senhor presidente” ou de uma “doutora meritíssima”. E, sem perceber, no silêncio respeitoso que fazemos ao escutar um especialista, como se ele fosse, secretamente, um sacerdote.

O mais curioso — e talvez o mais triste — é que seguimos, sem querer, encenando os velhos rituais que herdamos de séculos de Igreja.

As togas, as becas, os brasões, os juramentos, as solenidades, os púlpitos.

Nos tribunais, nos parlamentos, nas universidades, nos escritórios.

Tudo nos lembra, mesmo que disfarçado, um altar.

E não estou dizendo que organização seja ruim. O problema é quando chamamos de ordem o que é, na verdade, obediência disfarçada de costume.

Temos horror ao vazio e, no desespero, oferecemos nosso próprio altar ao primeiro que se apresente:

Se não for Deus, que seja o Estado.

Se não for o Estado, que seja o Mercado.

Se não for o Mercado, que seja o Coach.

Se não for o Coach, que seja o Instagram.

A pergunta que preferimos calar é:

será que aguentamos mesmo viver sem um Pai?

Sem um superior que nos diga o certo, que tome as decisões difíceis, que carregue o peso por nós?

Ou será que essa necessidade já virou vício?

O medo de perder as hierarquias — de cair no caos — é tão grande que aceitamos repetir a fórmula, mesmo sabendo que ela não encaixa mais.

Nos afeiçoamos ao opressor, desde que ele venha com protocolo, farda ou batina.

E, no fundo, sabemos.

Liberdade mesmo exigiria que cada um ocupasse o próprio altar.

Mas isso — convenhamos — dá um trabalho danado.

E você? Já parou para pensar em quem tem sido o seu “Pai” ultimamente?

No altar da vida, será que somos mesmo tão livres quanto gostamos de acreditar?

Publicado por Bruna Monma

Escritora e criadora de projetos autorais. Escrevo crônicas, reflexões e narrativas sobre identidade, tempo e o que não cabe em legendas. Acredito na palavra como forma de presença.

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