
A gente achava que a vitrine era o mundo.
Que o vidro brilhava porque era puro, e não porque refletia as luzes artificiais que a gente mesmo pendurou ali. A gente chamava de liberdade. De sucesso. De “conquistar o que é seu”. E por muito tempo, isso bastou.
Mas um dia a vitrine quebrou.
Talvez tenha sido um vídeo no TikTok, um dado solto por aí, uma matéria que ninguém quis dar muita atenção — ou só aquela sensação incômoda de que tinha algo fora do lugar, mesmo quando tudo parecia estar no seu devido. E foi aí que as rachaduras começaram.
Não era só sobre bolsas de luxo fabricadas a preço de banana.
Nem sobre a China expondo os bastidores do Ocidente.
Era sobre perceber o feitiço. A engrenagem. O encanto disfarçado de escolha.
Espiritualmente, esse momento é uma travessia. O que se quebra fora reflete o que se rompe dentro. Porque quando uma estrutura cai, uma consciência se levanta.
E não tem como não sentir: o mundo tá mudando. Não de um jeito bonito ou instagramável — mas de um jeito real, que tira o sono e tira a venda dos olhos.
A vitrine quebrada é a metáfora do fim da ilusão.
A ilusão de que liberdade é comprar.
De que justiça é só discurso.
De que sustentabilidade é estética.
De que progresso é dominar o outro com um sorriso e uma taxa de juros.
E quando a gente vê isso com os olhos da alma, dói.
Dói perceber que a mesma mão que te oferece um brinde é a que aperta um botão de guerra.
Dói ver que os heróis das histórias sempre têm o mesmo sotaque, a mesma cor, a mesma narrativa.
Dói entender que até a espiritualidade foi embalada pra vender paz em 12x sem juros.
Mas dói porque cura.
E cura porque mostra.
E mostra porque chegou a hora.
Você começa a enxergar.
A ver que o luxo também mente. Que o sistema também engana.
Que as histórias que te contaram não são as únicas.
E que a verdade não precisa gritar — ela só precisa ser olhada de frente.
Nesse momento, as almas que vieram pra sentir tudo, questionar tudo, e transformar isso em arte — começam a se mover.
Não pra salvar o mundo com fórmulas prontas.
Mas pra criar brechas. Palavras. Silêncios.
Espaços onde quem ainda dorme possa, talvez, sonhar diferente.
E não importa se você fala disso com poesia, ironia, ou com uma xícara de café na mão enquanto escreve uma crônica no meio da segunda-feira.
O que importa é que você vê.
Você sabe.
Você sente.
A vitrine quebrou.
E agora, você pode escolher:
colocar os cacos de volta ou
usar os estilhaços pra cortar as amarras.
– b. monma