🎧 Manifesto – Enquanto Tocava

(ou: uma tentativa de transformar o peito em partitura)

Eu não me lembro da minha vida sem música. Na verdade, acho que nem existi antes dela. Cresci cercada de gente que tinha bom gosto musical — o que já é uma sorte estatística, se você parar pra pensar. Tinha MPB na vitrola do avô, rock clássico na sala dos pais, pop no meu quarto, indie no fone. Fui criada por trilhas sonoras.

Sempre fui daquelas que sente tudo. Tudo mesmo. E quando você sente tudo, ou você enlouquece… ou coloca uma música pra tocar. Sons me atravessam. Frequências me curam. Barulhos me enlouquecem. Música me ancora. Me conecta comigo, com o que fui, com o que nem sei que sou. Tem música que tem cheiro de saudade, outras me deixam em estado de euforia tipo final de novela boa, e tem aquelas que só de tocar já me fazem chorar como se tivessem acabado de me largar no altar. (Mesmo eu nunca tendo sido noiva abandonada.)

Eu escuto música de todo jeito: no carro, no fone, na TV, no banho, deitada, dançando sozinha na sala, fugindo de mim mesma ou tentando me encontrar. Porque, às vezes, uma música é só um fundo sonoro. Mas, às vezes, ela é tudo o que sobrou quando o resto foi embora.

Tem músicas que me transportam direto pro túnel do tempo, sem aviso prévio. Sit Next To Me, do Foster the People, me leva pra 2018 como se fosse carona. My Boo, do Usher, me joga numa praia da infância com a minha família. Sirens, do Monolink, me faz lembrar dos rolês de carro com o meu melhor amigo — onde tudo parecia possível e meio proibido também. E Água de Beber, do Tom Jobim, tem cheiro da casa dos meus avós. Cheiro de quando ele ainda estava aqui.

Teve uma vez, numa rave do Alok (sim, esse manifesto tem rave também), que eu tava no fundo do poço — e ele tocou Ai Ai Ai, da Vanessa da Mata. E começou a chover. Foi tão simbólico, tão cena de filme, que eu quis levantar e agradecer a Deus, ao DJ e à meteorologia. Às vezes, uma música toca e parece que o universo tá tentando te salvar discretamente.

Essa série nasceu disso. Dessa vontade de transformar canções em crônicas, sensações em palavras, lembranças em playlist. Porque a música não é só som — é memória comprimida em três minutos e vinte segundos. É o jeito mais bonito que eu conheço de voltar pra mim mesma sem GPS.

Também já produzi algumas músicas, mas isso… isso é assunto pra outro texto. Um mais íntimo, mais cru, mais meu.

Essa série é pra quem já se apaixonou por alguém só porque ele tinha uma playlist boa.

Pra quem chora em silêncio com fone no ouvido.

Pra quem acredita que certas músicas foram feitas pra ela (mesmo que milhões de pessoas pensem o mesmo).

Aqui, vou escrever sobre o que escuto — e sobre o que a música me faz escutar de mim.

Porque, no fundo, toda história tem um refrão.

E eu tenho vários.

– b. monma

Publicado por Bruna Monma

Escritora e criadora de projetos autorais. Escrevo crônicas, reflexões e narrativas sobre identidade, tempo e o que não cabe em legendas. Acredito na palavra como forma de presença.

2 comentários em “🎧 Manifesto – Enquanto Tocava

  1. A música é uma extensão de mim. Mesmo não sendo músico, é assim que me vejo — e é assim que me sinto.

    Ela já me salvou de mim mesmo, dos meus piores terrores internos. Uma que carrego comigo é a versão de Sujeito de Sorte, do Belchior, que o Emicida gravou com o nome AmarElo. Curiosamente, ele mesmo — que um dia critiquei por pura ignorância juvenil — por eu, cego de preconceito, me recusar a ouvir além dos estilos que aprendi a gostar.

    Hoje, mais musical do que nunca, amo todo tipo de som. Me permito arriscar — e, no pior dos casos, me arrependo. No melhor? Me apaixono por mais uma canção.

    São tantas que falam direto ao coração. Algumas cutucam feridas antigas. Outras trazem lembranças doces, tempos bons, pessoas queridas.

    De vez em quando me arrisco a escrever uns versos. Guardo alguns pra mim, compartilho outros com quem está por perto.

    A música, sem dúvida, é alimento pra alma.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Magskull, seu comentário me emocionou mais do que consigo dizer.
      É bonito ver alguém que já se recusou a ouvir hoje se permitir sentir. É bonito — e raro.

      O que você escreveu tem música nas entrelinhas, e me lembrou exatamente por que escrevi esse manifesto. Porque a música tem esse dom: de tocar onde nenhuma palavra alcança.

      A versão de Sujeito de Sorte em AmarElo também me atravessa. Belchior tem esse poder de nos lembrar quem somos, mesmo quando estamos perdidos de nós mesmos.

      Obrigada por compartilhar seu som e seu silêncio aqui.
      Esse espaço é seu também.

      – b. monma

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