Sobre ver demais

Outro dia me peguei pensando se esse meu hábito de cavar sentido em tudo é benção ou cilada.

Se esse jeito de sondar o invisível, fuçar silêncio e farejar nuances é um dom espiritual ou só o meu jeito preferido de enlouquecer com classe.

Tem gente que vive no raso, e olha — admiro. Deve ser confortável. Tipo nadar de boia na piscina infantil, sem o risco de afundar. Eu não. Eu quero é saber se tem monstro lá no fundo, se o ladrilho do azulejo tem rachadura, se aquela folha que boia tem uma história triste.

Chamam isso de consciência ampliada, mas às vezes acho só um outro nome pra ansiedade gourmet.

Porque o preço de enxergar além é também inventar além. E daí, confesso: fico tateando pra distinguir quando é intuição e quando é só a paranoia de sempre dando bom dia.

A intuição chega suave. Não levanta a voz, não faz escândalo. É quase como se dissesse “confia em mim” e fosse embora. Já a paranoia, coitada, berra, agita, arrasta correntes e me obriga a perder o sono.

Mas vai explicar isso pra cabeça que insiste em dramatizar?

No fim, vivo assim: meio xamã, meio neurótica. Meio bruxa, meio vítima. Me achando sábia enquanto me enrosco nos próprios nós.

E sigo torcendo pra que no meio dessa bagunça, o que realmente seja voz da alma não passe despercebido.

Porque se tem uma coisa que aprendi, é que o invisível fala baixo. E, por ironia, a gente vive fazendo barulho demais pra ouvir.

– b. monma

Publicado por Bruna Monma

Escritora e criadora de projetos autorais. Escrevo crônicas, reflexões e narrativas sobre identidade, tempo e o que não cabe em legendas. Acredito na palavra como forma de presença.

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