O dinheiro é emocional (não só matemático)

Toda sexta tem texto novo dessa série aqui. Então se você, assim como eu, tá tentando virar adulto sem se sentir um completo fracasso, volta na próxima semana. A gente tropeça, ri, chora e tenta de novo — juntos.

Dinheiro sempre foi uma presença curiosa na minha vida. Não posso dizer que cresci na escassez, nem que vivi rodeada de luxo desde o começo. Teve momentos mais apertados, teve fases de abundância. No meio de tudo isso, eu — uma criança mimada, que quase sempre teve o que quis, sem precisar esperar muito.

Quando meu pai prosperou de verdade, o céu virou o limite. E aí ficou ainda mais fácil confundir amor com presentes, felicidade com coisas novas, validação com o som de uma sacola sendo rasgada. Talvez tenha começado ali essa relação meio torta com o dinheiro, meio carinhosa, meio traumática — como quase todo mundo tem, se for bem honesto consigo.

O que deveria ser só uma questão de contas e planilhas, é na verdade um campo minado emocional. E não sou só eu dizendo isso: a psicologia comportamental tá cheia de estudos que mostram como nossas decisões financeiras estão muito mais ligadas ao cérebro emocional (sistema límbico) do que ao racional (córtex pré-frontal). Ou seja, a gente compra felicidade. Literalmente.

Tem pesquisa publicada no Journal of Consumer Psychology mostrando que o simples ato de comprar algo desejado ativa os mesmos circuitos de dopamina que experiências prazerosas — tipo comer chocolate ou ouvir sua música favorita. O problema? A dopamina é rápida. Passa logo. E aí vem aquele vazio, o “por que eu fiz isso mesmo?” que me dá vontade de devolver tudo e começar do zero.

Eu me sinto muito feliz na hora de gastar, mas depois que a empolgação passa… fico triste. Ultimamente tenho tentado — e conseguido — controlar um pouco mais isso. Mas ainda é difícil não ver o consumo como uma necessidade quase vital. No mundo capitalista que a gente vive, com anúncios e influencers enfiando coisas na nossa cabeça o tempo todo, parece impossível não querer algo novo, algo que te faça sentir importante, especial, única — por cinco minutos.

Se eu fosse listar minha maior burrada financeira, seria fácil: emprestar dinheiro. Não importa quão triste é a história, quão convincente é o olhar do outro ou quão bonita parece a minha generosidade. Na real, quase sempre acaba em culpa, ressentimento ou prejuízo. Então fica aqui o primeiro aprendizado adulto real oficial: não empreste dinheiro. Dê, se quiser e puder. Mas emprestar é quase sempre convite pra dor de cabeça.

Já o maior orgulho financeiro… talvez eu ainda não tenha encontrado. O que sei é que quero muito aprender a guardar dinheiro, a não ver o consumo como anestesia, a parar de me enganar com microfelicidades compradas no débito. Só que crescer financeiramente é, antes de tudo, crescer emocionalmente. E isso, meu Deus, é tão mais difícil do que parece.

Aliás, tem outro estudo curioso da University of British Columbia que mostra que gastamos mais facilmente com status ou aprovação social do que com coisas realmente úteis. Isso explica por que é tão difícil resistir ao vestido que te faz sentir uma CEO da vida perfeita no Instagram, mas tão fácil adiar um plano de previdência.

No fim, dinheiro não é só número. É história, é infância, é autoestima, é medo de perder, é prazer imediato. E se tem uma coisa que tenho tentado fazer é olhar pra tudo isso com mais sinceridade. Perguntar:
por que eu quero isso agora?
vai me trazer paz depois ou só uma descarga rápida de felicidade que vai me deixar triste na terça?
eu posso mesmo ou só tô tentando tapar um buraco?

Talvez, um dia, eu aprenda a me responder com mais clareza. Enquanto isso, sigo tropeçando nas mesmas armadilhas, só que agora mais consciente. E isso, no meu mundinho, já é um tipo de vitória.

No fim das contas, acho que tá todo mundo tentando dar sentido pro dinheiro do mesmo jeito que tenta dar sentido pra vida. Uns compram pra se sentir amados, outros guardam pra não se sentir vulneráveis, outros simplesmente gastam porque é mais fácil do que encarar o que tá faltando por dentro.

Se você também tá nesse meio do caminho, tentando equilibrar o que quer com o que pode, o que sente com o que mostra pros outros… bem-vindo. A gente tá junto nesse tropeço — aprendendo, errando e, de vez em quando, acertando.

E talvez isso já seja bem mais do que suficiente.

-b.monma

Publicado por Bruna Monma

Escritora e criadora de projetos autorais. Escrevo crônicas, reflexões e narrativas sobre identidade, tempo e o que não cabe em legendas. Acredito na palavra como forma de presença.

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