De canto em canto, eu fui ficando

Se tem uma coisa que sempre me acompanhou, além da minha franja torta nas fotos da 7°ano e do drama leonino desnecessário, foi esse dom esquisito de caber em mais de um lugar.

Nunca fui de panelinha. Eu era o tempero. Aquela que se dava bem com todo mundo, mas não se perdia em ninguém — ou pelo menos tentava.

Na sala de aula, meu lugar não era fixo. Tinha dia que eu tava no fundão rindo com os engraçadinhos. No outro, na primeira fileira, batendo papo com a professora (não por puxa-saquismo, mas porque eu genuinamente gostava de perguntar coisas que ninguém tinha perguntado desde 1998).

Passei por mais fases que a lua. Já tive minha versão skatista de aba reta (sim, com adesivo), minha fase hippie com saia longa e pulseira de miçanga, a roqueira metida a cult, a emo de franja no olho e frase melancólica no status, a patricinha de gloss roll-on com glitter, e até a nerd que pedia tarefa extra (me respeita que fui várias).

Mas o mais curioso é que, no fundo, eu era todas elas ao mesmo tempo. E talvez ainda seja.

Nunca foi por carência de personalidade. Era excesso. Excesso de curiosidade, de vontade de entender o outro, de experimentar o mundo sem precisar escolher um rótulo definitivo pra colar na testa.

Enquanto uns se organizavam por tribos como se estivessem montando time de vôlei na educação física, eu circulava com a leveza de quem não tava nem no jogo.

Um dia com os que jogavam. No outro, com os que odiavam esportes e preferiam desenhar no caderno de matemática.

Transitar, no meu caso, sempre foi pertencer a mim mesma.

Mesmo que às vezes eu não tivesse certeza de quem, exatamente, era esse “mim mesma” do momento.

Claro que já me senti sem tribo. Já teve fase em que eu pensei: “será que sou do contra ou só do avesso?”

Mas tudo bem. A gente nasce e morre sozinho mesmo. O que encontrar no meio do caminho é lucro. E olha, se for gente boa e comida boa, melhor ainda.

Hoje eu olho pras minhas amizades e dou risada. Tenho amiga que acredita em signo, outra que acha que astrologia é charlatanismo com glitter. Tenho os do “vamos orar” e os do “vamos beber”. E eu amo todos — cada um encaixa uma versão minha que só eles despertam.

Porque no fim, não sou de todo mundo.

Mas sou de muitos mundos.

E isso nunca foi um problema. Foi um superpoder.

Gosto de pensar que sentar em vários lugares da sala foi meu primeiro passo pra ser quem sou hoje: alguém que escuta, que acolhe, que observa o caos com carinho.

Alguém que entende que algumas pessoas precisam de grupo, de rótulo, de uniforme emocional.

E outras — como eu — só querem viver o que vier, desde que venha com verdade e talvez um pouco de batata frita.

– b. monma

Publicado por Bruna Monma

Escritora e criadora de projetos autorais. Escrevo crônicas, reflexões e narrativas sobre identidade, tempo e o que não cabe em legendas. Acredito na palavra como forma de presença.

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