Como nossos traumas moldam o amor (e a vida toda)

Toda sexta tem texto novo dessa série aqui. Então se você, assim como eu, tá tentando virar adulto sem se sentir um completo fracasso, volta na próxima semana. A gente tropeça, ri, chora e tenta de novo — juntos.

Amar é talvez o tema mais batido e ainda assim mais bagunçado que existe. Eu carrego inseguranças até hoje por conta de relacionamentos anteriores — medo de ser trocada, medo de não ser suficiente, medo de amar mais do que o outro. E por mais que eu tente romper padrões, às vezes parece que eles me perseguem, silenciosos, prontos pra dar o bote na primeira brecha.

Outro dia escrevi um texto que dizia tudo o que, pra mim, não cabe no amor:

Falta de consideração.
Falta de prioridade. Falta de empatia.
Querer ser amado, mas esquecer de amar.
Querer cuidado, mas não saber cuidar.
Amor é parceria.
É cumplicidade.
É fazer mercado de mãos dadas e dividir a louça no fim do dia.
É rir das fofocas mais bestas e guardar segredos como se fossem jóias.
É lembrar que ninguém segura sozinho um sentimento que foi feito pra dois.
Quando a balança pesa só de um lado, não há amor que aguente em pé.
Amor não é silêncio quando se precisa de palavras, nem palavras frias quando se precisa de calor.
Não é disputa de quem faz mais, sente mais ou se doa primeiro.
É troca. É presença. É intenção.
Não cabe o descaso, nem a mania de achar que o outro vai ficar pra sempre, mesmo sendo deixado pra depois.
Amor não sobrevive de migalhas nem de promessas vazias.
Ele se alimenta de gesto, de presença, de atenção nos detalhes.
Amor é saber a marca do café preferido, é lembrar de como foi o dia sem precisar perguntar.
É se importar mesmo nos dias em que tudo parece estar desmoronando.
É saber que dividir o peso é mais leve do que fingir que não sente.
E, principalmente: amor não cabe onde só um ama.
Não há equilíbrio onde só um segura o teto.

E isso não saiu só da minha cabeça poética — saiu também do que a ciência diz. A psicologia das relações tem algo chamado Teoria do Apego, criada pelo John Bowlby e depois expandida pela Mary Ainsworth. Ela mostra como o jeito que fomos cuidados (ou não) na infância molda a forma como amamos na vida adulta. Se crescemos inseguros, ansiosos, sempre precisando provar nosso valor pra alguém, é quase inevitável que a gente carregue isso pros relacionamentos. É nosso sistema nervoso que faz isso, nem sempre dá pra controlar.

Um estudo publicado no Journal of Personality and Social Psychology confirma que pessoas com apego ansioso tendem a ter medo constante de serem abandonadas, exageram sinais de rejeição e precisam de validação o tempo todo pra se sentirem seguras. Eu me senti um pouco exposta lendo isso — e ao mesmo tempo estranhamente aliviada. Tipo: não é só comigo, tem gente estudando isso num laboratório. Tá na biologia, na neuroquímica, na memória emocional.

E ainda tem o fator sociedade: a indústria cultural vende o amor como um script perfeito, com trilha sonora épica e grandes gestos cinematográficos. Mas a realidade? O amor real é muito menos editado, muito mais bagunçado, às vezes silencioso demais, às vezes tão barulhento que dá vontade de tampar os ouvidos.

A gente sonha com o amor do filme, mas a verdade é que cada história é única — até as parecidas. Não dá pra comparar. Tem quem viva um amor que parece sereno desde o início, tem quem só aprenda a amar direito depois de quebrar a cara mil vezes. Tem quem ame na calmaria, quem ame no caos, quem precise de colo, quem precise de espaço. Não tem fórmula.

E apesar das minhas dúvidas — e são muitas — sobre o que é amar de verdade, eu ainda acredito nesse amor simples e enorme, que não pesa. Que é escolha diária, viva, real. Que mesmo podendo ir, escolhe ficar.

No fim, acho que amar é sempre meio assustador, porque amar de verdade é se expor — é dar o coração na mão do outro e torcer pra ele não apertar demais. É confiar que o outro vai ficar, mesmo podendo ir. Às vezes eu mesma não sei o que é o amor ou como deveria ser, mas sei bem o que não quero viver de novo. Sei que quero algo que seja leve até nos dias pesados, que seja escolha até na rotina, que seja presença até no silêncio. E se você também tem seus medos, seus traumas, suas dúvidas sobre esse tal amor, tudo bem. A gente tá aprendendo junto, dia após dia, a amar sem deixar de nos amar primeiro. E talvez, só talvez, isso já seja o amor mais bonito que dá pra ter.

-b.monma

Publicado por Bruna Monma

Escritora e criadora de projetos autorais. Escrevo crônicas, reflexões e narrativas sobre identidade, tempo e o que não cabe em legendas. Acredito na palavra como forma de presença.

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