Crônicas do Agora: Quando descansar virou um ato político

Descansar nunca foi só sobre deitar. É sobre dizer “não” a um sistema que exige que a gente se esgote para se sentir útil.

Nos ensinaram que descansar é preguiça. Que parar é perder tempo. Que só merece respeito quem vive correndo.

Mas a verdade é que existe revolução no ato de pausar. Existe rebeldia em silenciar, em respirar, em escolher não adoecer por dentro para agradar por fora.

O descanso virou um ato político. E a alma agradece.

O mundo capitalizou até o tempo livre

Vivemos na lógica do “faça mais, produza mais, poste mais”. Até o ócio virou performance. Até o autocuidado virou conteúdo.

O sociólogo sul-coreano Byung-Chul Han, em seu livro “Sociedade do Cansaço”, afirma que vivemos em um tempo onde a autoexploração é disfarçada de liberdade. Não há mais patrão: nós mesmos nos cobramos como carrascos.

E mesmo quando não há nada pra fazer, há uma culpa pairando no ar. Como se parar fosse errado. Como se desacelerar fosse fracassar.

Mas quem disse que o sucesso é sinônimo de pressa?

Existe coragem em sair da corrida. Em desligar o celular. Em dormir cedo. Em não responder ninguém. Em se priorizar sem justificativa.

Descanso é reexistência

Na cultura ocidental, o descanso sempre foi visto como pausa entre tarefas. Mas em culturas africanas e indígenas, por exemplo, o descanso é parte da vida — não uma pausa dela.

A ativista norte-americana Tricia Hersey, criadora do movimento The Nap Ministry, afirma que “descansar é um direito ancestral” — e que corpos historicamente explorados precisam mais do que nunca aprender a descansar como forma de cura.

É sobre existir, e não apenas resistir. É sobre viver em vez de sobreviver.

Hoje eu escolho desacelerar

Hoje eu não vou ser exemplo de produtividade. Vou ser exemplo de pausa.

Vou me ouvir. Me acolher. Não é preguiça, é amor próprio. Não é fraqueza, é coragem.

Descansar é dizer: “eu não sou uma máquina.”
E eu repito isso até que minha alma acredite.

– b. monma

✦ Na próxima crônica: “A alma pede férias — e não é do trabalho.”
Uma reflexão lírica sobre o peso de estar presente sem estar inteira.

Publicado por Bruna Monma

Escritora e criadora de projetos autorais. Escrevo crônicas, reflexões e narrativas sobre identidade, tempo e o que não cabe em legendas. Acredito na palavra como forma de presença.

2 comentários em “Crônicas do Agora: Quando descansar virou um ato político

  1. Descansar hoje é artigo de luxo, e quando você o faz as pessoas perguntam o que tem de errado. Muitos não entendem a necessidade do ócio, do tédio e do descanso, por isso vivemos essa desenfreada sociedade adoecida pela ansiedade, depressão, medicamentos e mentes destruídas.

    Estou aprendendo da forma mais difícil, mas descansar é necessário e vou me dar a esse “luxo”

    Curtido por 1 pessoa

    1. É isso… descansar virou artigo de luxo mesmo. Mas o mais triste é perceber como fomos programados pra sentir culpa por parar. Como se só merecêssemos existir quando estivermos sendo úteis, entregando, produzindo, performando.

      A sua fala me atravessa porque também estou nesse aprendizado — e confesso: ainda tropeço nele quase todo dia. Mas tem algo bonito em se dar esse ‘luxo’, né? Como se a gente estivesse resgatando uma parte da alma que ficou esquecida entre os prazos e as exigências.

      Descansar é existir com coragem. É lembrar que somos humanos antes de sermos função. E só por isso, já merecemos respirar com leveza.

      Obrigada por compartilhar. A tua pausa também me ensina.

      Curtido por 1 pessoa

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