Nem toda revolução faz barulho. Algumas andam de biquíni na beira do rio e se recusam a se odiar em frente ao espelho.
Nos ensinaram a se esconder. A encolher a barriga. A cruzar os braços. A usar roupa preta pra “emagrecer visualmente”.
Mas ninguém falou como é se olhar no espelho e não sentir ódio. Ninguém ensinou a habitar o corpo — só a controlar, punir, esculpir.
Por isso, hoje, vestir o corpo que se tem é um ato político. Um tipo de coragem que nem sempre é vista, mas sempre é sentida.
A ditadura do retoque invisível
Na era dos filtros suaves, do corpo “naturalmente esculpido” e das “imperfeições estrategicamente perfeitas”, a verdade virou afronta.
Segundo um estudo da Dove (The Real Beauty Report), 84% das mulheres brasileiras se sentem pressionadas a atender aos padrões de beleza irreais. E mais da metade já deixou de postar algo por vergonha da própria aparência.
Isso não é sobre estética. É sobre liberdade.
O corpo virou vitrine. Mas eu ainda quero que ele seja lar.
Reaprender a se habitar
O corpo real tem marcas. Tem dobras. Tem memória. Ele registra tudo o que a alma viveu e o que o mundo tentou apagar.
E talvez seja hora de reaprender a morar nele — sem precisar se punir, esconder ou justificar.
Mostrar a barriga sem tensão. A celulite sem desculpa. O olhar sem medo. Tudo isso é um tipo de revolução suave.
Sou mais do que medida, sou presença
Não quero mais perder tempo odiando meu reflexo. O mundo já me diminui tanto. Não vou fazer isso comigo mesma também.
Meu corpo não é rascunho. Nem projeto. Nem promessa. Ele já é. E isso basta.
Me amar no corpo que tenho — e não no que prometeram que eu teria — é meu novo protesto.
– b. monma
✦ Na próxima crônica: “A mulher que cansou de se calar.”
Porque o silêncio sempre teve um preço. E a voz, um destino.