Crônicas do Agora: A mulher que cansou de se calar

Crônicas do Agora: A mulher que cansou de se calar

Ela não grita. Mas também não abaixa mais a cabeça. O silêncio que antes era medo agora é escolha. E a fala, liberdade.

Ela sempre foi educada. Boazinha. Daquelas que se desculpam por existir um pouco demais. Que diziam “tudo bem” até quando doía. Que engoliam choro, engoliam raiva, engoliam o próprio nome.

Até que um dia, não coube mais. Nem ela dentro de si. Nem os outros sobre ela. E foi ali, na beira da exaustão emocional, que nasceu outra mulher: a que não se cala mais.

Não porque aprendeu a gritar. Mas porque entendeu que a própria existência já é barulho suficiente.

O preço do silêncio feminino

Não é de hoje que as mulheres são ensinadas a se calar. Desde pequenas, aprendemos que “menina bonita é comportada”. Que “não pode responder”. Que “não fica brava”. Que “fala baixo”.

Esse tipo de educação cria mulheres que se cortam em pedaços pra caber nos moldes dos outros — e depois não entendem por que se sentem vazias.

“Ensinaram-nos a engolir o grito, e agora confundem a nossa dor com delicadeza.”
– Christiane Gomes

O silêncio feminino não é natural. É condicionado. E a cura vem quando ele deixa de ser obrigação e passa a ser escolha — uma pausa consciente, não uma submissão disfarçada de doçura.

A nova coragem é se posicionar

Hoje, mais do que nunca, é urgente que mulheres se expressem. Com palavras. Com escolhas. Com o corpo. Com os “nãos” que não precisam mais ser explicados.

Porque o mundo ainda chama de “difícil” a mulher que ousa se posicionar. Mas difícil mesmo é viver se anulando.

Ela cansou de agradar. De recuar. De engolir seco. E agora, a fala dela vem com borda, com voz, com verdade. E quem não sabe ouvir, que se afaste.

Liberdade não é gritaria. É inteireza.

Ela não precisa provar mais nada. Nem ser amada por todos. Nem ser compreendida sempre. Mas precisa, sim, ser inteira.

Inteira pra errar. Pra mudar de ideia. Pra chorar no meio da reunião. Pra sair de um relacionamento que já não cabe. Pra dizer que não aguenta. Pra gritar se quiser. Pra silenciar se precisar.

Ela não se cala mais. Porque sua voz é lugar. É casa. É espelho. É herança pra quem vier depois.

– b. monma

✦ Na próxima crônica: “Postei e não me encontrei.”
Sobre a ilusão da presença digital e a ausência emocional de si mesma.

Publicado por Bruna Monma

Escritora e criadora de projetos autorais. Escrevo crônicas, reflexões e narrativas sobre identidade, tempo e o que não cabe em legendas. Acredito na palavra como forma de presença.

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