Crônicas do Agora: Ter menos, ser mais — a moda além da vitrine

Já comprei por impulso, já me vesti pra caber. Mas hoje, só fica no meu corpo o que me veste por dentro.

Meu guarda-roupa já foi território de guerra entre o que eu era, o que queriam que eu fosse e o que eu tentava descobrir. Já transbordou de roupas que não tinham nada a ver comigo — mas que estavam na moda. Ou em liquidação. Ou na fase em que eu só queria me reencontrar em alguma arara qualquer.

Hoje, ele continua cheio — seria hipocrisia negar. Eu amo moda. Meu maior gasto é com roupa. Mas aprendi que o estilo não está na quantidade. Está no que permanece depois da limpeza.

É no meio do excesso que a gente aprende a escolher. E estilo é isso: saber voltar pra casa mesmo depois de se perder um pouco.

Quando o excesso revela um vazio

Já comprei peça que nunca usei. Várias. Dei embora com etiqueta. E percebi que toda compra por impulso vinha de uma tentativa de preencher alguma ausência — de mim em mim.

Segundo a estilista e consultora de moda sustentável Vivienne Westwood, “compremos menos, escolhemos melhor e façamos durar.” Parece simples, mas é revolucionário.

Hoje, eu só fico com o que me representa — mesmo que seja velho, básico ou repetido. Porque quando a alma tá confortável, o look sempre funciona.

Desapegar com afeto

Fiz as pazes com o desapego. Tirei do armário as roupas que já não carregavam minha energia, que prendiam uma versão antiga de mim ou que traziam lembranças pesadas.

Mas também deixei peças eternas — aquelas que me lembram de onde vim. A calça jeans larga e de cintura baixa, por exemplo: me veste em qualquer versão. Ela sustenta sem gritar. Firme, mas livre. Como eu quero ser agora.

Desapegar, pra mim, não é sobre ter pouco. É sobre ter o que faz sentido.

Moda como tradução emocional

Hoje eu me visto pra mim. Meu estilo é o equilíbrio entre o sofisticado e o despojado. Gosto do corte certo, do tecido bom, da peça que não precisa chamar atenção — mas que segura minha energia o dia inteiro.

Pra mim, ter estilo é quando até o básico diz: “isso sou eu.”

Porque no fim, não é sobre colecionar roupas. É sobre não se perder de si entre as vitrines.

O que dizem os estudos sobre isso

  • Carolyn Mair, psicóloga da moda, afirma que nossas roupas afetam diretamente nossa tomada de decisões, autoestima e segurança emocional.
  • Vivienne Westwood, referência em consumo consciente, defende que menos é mais — desde que tenha intenção e qualidade.
  • Estudos de comportamento de consumo indicam que quanto mais alinhada a peça está com nossa identidade emocional, mais duradoura ela se torna em nosso guarda-roupa.

Vestir-se bem é, antes de tudo, uma forma de se lembrar de quem você é.

– b. monma

✦ Na próxima crônica: “Entre o look e o loop: ainda sei me vestir sem o algoritmo?”
Sobre moda, algoritmo, confusão estética e o desejo de voltar a escolher sem depender da aprovação alheia.

Publicado por Bruna Monma

Escritora e criadora de projetos autorais. Escrevo crônicas, reflexões e narrativas sobre identidade, tempo e o que não cabe em legendas. Acredito na palavra como forma de presença.

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