São Paulo, 1976.
O jornal fala de enchentes, poluição e promessas políticas.
De carros que já não cabiam nas ruas, e de pessoas que já não cabiam nos sonhos.
Diziam que era o preço do progresso.
Me pergunto: e se o progresso for justamente o que nos impede de progredir?
A cidade crescia mais rápido do que qualquer árvore conseguiria respirar.
Os rios Tamanduateí e Tietê, ainda tentavam dizer alguma coisa, mas ninguém ouvia.
Foram domesticados, asfaltados, esquecidos.
O que era curso virou trânsito.
As manchetes falavam em 21 milhões de habitantes, mas talvez o número real fosse um só:
o de almas cansadas.
Gente que atravessava a cidade todos os dias como quem tenta atravessar a própria vida.
As promessas de urbanismo moderno, de transporte eficiente e de políticas ambientais parecem ecoar, ainda hoje, nas mesmas esquinas onde o tempo emperrou.
A história se repete, só os outdoors mudam de cor.
E ainda chamam isso de “desenvolvimento”.
Às vezes, acho que São Paulo é o espelho perfeito do humano:
quanto mais cresce, mais se perde de si.
Mas também sei que é nessa confusão, nesse caos, que mora a beleza.
A teimosia da vida que insiste, mesmo cercada de concreto.
O barulho dos passos que, mesmo apressados, ainda procuram sentido.
São Paulo é o que sobra entre o sonho e o trânsito.
— b. monma
(o que herdei do tempo, 1976–2025)
Uau, amei! Que belo – e infelizmente verdadeiro – texto!
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Que bonito ler isso, obrigada 🖤
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