A menina que queria aprender por música

Quando eu era criança, pedi para que a professora explicasse a matéria em formato de música. Ela achou estranho. Chamou minha mãe pra conversar. Talvez tenha visto ousadia, talvez insubordinação, mas no fundo eu só queria entender o mundo de um jeito que fizesse sentido pra mim.

Enquanto uns aprendiam decorando fórmulas, eu precisava sentir ritmo. Aprender, pra mim, era uma experiência sonora, quase espiritual. Eu não queria dominar a matéria, queria viver o que estava sendo ensinado.

Corta para alguns anos depois: na minha casa, eu podia escolher qualquer faculdade…
desde que fosse Medicina, Direito ou Engenharia. Escolhi Direito e logo percebi que aquilo não tinha nada a ver comigo. Mas não foi culpa de ninguém. Eu só não me conhecia. E ninguém, até então, tinha me ensinado que o que eu chamava de “estranheza” era, na verdade, um dom.

Passei anos tentando ser lógica, produtiva, responsável. Mas havia um incômodo, uma voz miúda dizendo que o meu modo de existir, o meu modo de pensar por sensações, não era um defeito. Era apenas arte pedindo espaço.

E eu, que cresci ouvindo que “sonho não paga conta de luz”, acabei apagando o próprio brilho por medo de brilhar errado. Porque o sistema é rápido pra premiar quem decora, mas lento pra acolher quem cria. E a arte, além de tudo, é elitizada, parece que só quem nasce com segurança pode se dar ao luxo de ser artista.

Aos 28 anos, voltei a escrever. E quando escrevi de novo, não foi pra ser lida, foi pra me ouvir. Descobri que ainda existia ali aquela menina que acreditava que aprender podia ser leve, musical, bonito. E que, mesmo negligenciada, ela esperava pacientemente que eu voltasse pra buscá-la.

Hoje, percebo que a arte é o que restou de tudo o que tentaram calar. Ela não é fuga: é tradução. O sistema pode estar falido, mas o espírito humano ainda compõe. E reencontrar-se com a própria voz, por mais dolorido que seja, é um dos atos mais revolucionários que existem.

Porque, no fim, a menina que queria aprender por música só estava tentando lembrar ao mundo que o conhecimento, sem alma, é apenas ruído.


-b.monma ✦

Publicado por Bruna Monma

Escritora e criadora de projetos autorais. Escrevo crônicas, reflexões e narrativas sobre identidade, tempo e o que não cabe em legendas. Acredito na palavra como forma de presença.

8 comentários em “A menina que queria aprender por música

  1. Lindo… linda reflexão, Bruna!👏🏾👏🏾👏🏾 A arte sempre ela…! Isso me lembrou um personagem de lá dos 90’s, o ‘Pachecão.’..! Um professor de física(eu acho) que passava a sua matéria para a turma munido de um violão e cantando todos aqueles termos tão complicados…rs é interessante, como tudo que envolva ou se faça com arte! Um bom dia e sábado, minha irmã em letras!

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