Eu passei boa parte da minha vida tentando ser impecável.
O problema é que a impecabilidade sempre teve o péssimo hábito de chegar atrasada.
E eu, que sempre fui pontual com minhas próprias expectativas, vivia correndo atrás de uma versão minha que só existia nos dias bons e olhe lá.
Foi aí que descobri uma filosofia japonesa chamada wabi-sabi, que basicamente diz o seguinte (num resumo totalmente brasileiro da minha parte):
“relaxa, você não veio ao mundo para ser embalagem fosca de loja cara; você veio para ser humano.”
E aquilo me atravessou de um jeito estranho.
Porque, de repente, tudo o que eu chamava de falha começou a ganhar outra textura.
A rachadura virou história.
A bagunça virou processo.
A pausa virou respeito por mim.
E a minha mania de tentar controlar tudo virou… cansaço.
Do tipo que a gente decide abandonar.
Wabi-sabi é a arte de enxergar beleza no que é real.
É aceitar que a vida não cresce do lado de fora: cresce nas frestas.
Nos tropeços, nos dias médios, nos detalhes que ninguém repara mas que, por algum motivo, sempre me escolhem para serem percebidos.
E talvez seja isso que eu mais gosto nessa filosofia:
ela não exige nada.
Não pede que eu seja melhor que ontem.
Não pergunta se eu estou pronta.
Não exige performance, iluminação, ou “versão 2.0”.
Ela simplesmente diz:
“você pode ser você e isso já é belo o suficiente.”
E olha… viver isso na prática não é exatamente glamuroso.
Tem dias que eu acordo despretensiosamente poética, e tem dias que acordo despretensiosamente um caos.
Mas ambos pertencem a mim.
E ocupar quem eu sou, sem polimento excessivo, tem se tornado um exercício de liberdade diária.
A beleza altamente despretensiosa de ser eu está justamente na falta de roteiro.
No fato de que eu não brilho sempre mas, quando brilho, é porque eu estou viva, e não porque alguém apertou um interruptor exigindo isso de mim.
Está no humor que nasce da minha própria sinceridade.
E está, principalmente, na paz de não precisar impressionar ninguém que não esteja disposto a me olhar de verdade.
Afinal, a vida não pede simetria.
Ela pede presença.
Ela pede coragem de continuar existindo enquanto a gente se descobre.
Ela pede o simples, mas pede com profundidade.
Se existe algo que aprendi nessa new era é que não há nada mais elegante do que ser honesta com o próprio processo.
E que, se o tempo vai me deixar marcas (e ele vai), que ao menos sejam marcas que contem alguma história bonita.
Nem que a beleza dessa história seja justamente o fato de não ter sido planejada.
No fim, eu descobri que não preciso ser perfeita.
Eu só preciso ser eu.
Despretensiosa.
Inteira.
E, do meu jeito torto e curioso, profundamente viva.
O estudo por trás da filosofia wabi-sabi
Se você chegou até aqui, talvez também sinta que existe algo de silenciosamente belo no que não se encaixa.
A verdade é que o wabi-sabi nasceu exatamente disso: da percepção de que a vida, quando observada sem pressa, revela uma estética que só existe porque é imperfeita.
Onde essa filosofia começou
O wabi-sabi tem raízes no Zen budismo, uma tradição espiritual que nos convida a observar o presente, a simplicidade e a impermanência como mestres.
Tudo o que vive, se transforma.
Tudo o que existe, um dia desaparece.
Não como tragédia, mas como ciclo.
Os antigos mestres japoneses enxergavam beleza no que carregava o tempo:
a cerâmica que trinca, o papel que amarela, a madeira que absorve a história.
Nada era escondido.
Nada era maquiado.
A marca era o encanto.
Wabi: o espírito da simplicidade
Originalmente, wabi era quase um sinônimo de solidão rural, uma vida modesta, ligada à natureza, sem excessos.
Com o tempo, ele se transformou em outra coisa:
a capacidade de encontrar profundidade naquilo que é simples, silencioso, essencial.
É o “menos, mas com alma”.
Sabi: a poesia do tempo
Já sabi fala sobre o que só o tempo consegue fazer:
dar textura, camadas, profundidade, história.
É a elegância do envelhecer, do transformar, do deixar ir.
Sabi nos lembra que o novo impressiona, mas é o vivido que encanta.
E o que isso tem a ver comigo (e com você)?
Quando conheci essa filosofia, entendi que ela não é sobre objetos.
É sobre gente.
Wabi-sabi é sobre aceitar que ninguém é perfeitamente simétrico, emocionalmente polido ou existencialmente organizado.
Somos humanos, portanto, uma coleção de histórias em construção.
E é aí que mora a beleza.
Wabi-sabi é a antítese da performance e a celebração da presença.
Não é sobre “melhorar”.
É sobre enxergar.
Pequenas práticas wabi-sabi para a vida real
• Achar graça nos dias médios.
• Guardar só o que carrega história.
• Parar de tentar consertar tudo.
• Deixar as pausas existirem sem culpa.
• Aceitar que crescer também é descascar o que não serve.
• Se observar com honestidade e gentileza.
A essência é simples:
o que é real sempre vale mais do que o que é perfeito.
E, para mim, essa é a beleza altamente despretensiosa de ser eu e talvez também de ser você.
— b. monma ✦
Que belíssima reflexão, Bruna! Texto lindo, tema imprescindível. E, como é bom ler isso em tempos que competitividade, sobre ser “sempre mais”, sobre vida ser validada pelo “Strava” que divulga. Muito bom mesmo! Você leu algum livro sobre “Wabi-sabi”?
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Érika, que alegria ler você por aqui. ✨
Em tempos tão acelerados, o wabi-sabi realmente vira um respiro.
Recomendo “Wabi-Sabi: para artistas, designers, poetas & filósofos”, do Leonard Kore, é simples, profundo e lindo de ler.
Obrigada por compartilhar esse olhar comigo. 💛
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