Byung-Chul Han não escreveu sobre o futuro. Ele escreveu sobre nós, cansados antes mesmo de admitir.
A sensação de esgotamento que atravessa esta década costuma ser atribuída ao digital, às redes, à pressa moderna. Mas isso é só a superfície. O cansaço que sentimos hoje não nasceu agora. Ele apenas sofisticou sua forma de existir.
Do corpo explorado à mente saturada
Na Revolução Industrial, o corpo foi reduzido a máquina. O tempo era externo, o controle era visível, o cansaço era físico. Havia exploração, mas também havia um inimigo claro.
O que mudou não foi o sistema. Foi o endereço da fábrica.
Hoje, ela funciona dentro da cabeça.
Saímos da lógica do “você deve” para a lógica muito mais cruel do “você pode”. Pode produzir mais. Pode melhorar mais. Pode ser mais. Pode dar conta.
E quando não dá, o fracasso parece pessoal.
A crise que se repete: 20, 30… e a sensação de atraso
Há um cansaço específico que aparece em certos ciclos da vida. Ele surge na crise dos 20, quando o mundo exige definição. E retorna na crise dos 30, quando a pergunta muda de tom:
Como assim minha vida ainda não está pronta?
Não é apenas comparação social. É uma cobrança interna constante para estar “em algum lugar”, mesmo sem saber exatamente onde.
O corpo segue. A mente não descansa.
O que a ciência confirma (e o corpo já sabia)
O excesso de estímulos mentais mantém o organismo em alerta permanente.
- Cortisol alto por tempo prolongado cria um estado de sobrevivência contínua. O corpo não entende que o perigo acabou, porque ele nunca acaba.
- Burnout não é exaustão pontual. É quando o sistema nervoso entra em colapso por não encontrar pausas reais, só interrupções culposas.
- Ansiedade não nasce do medo do presente, mas da superlotação do futuro. Muitas possibilidades, muitas expectativas, pouco chão.
Não é falta de descanso. É excesso de exigência.
Eu, o corpo cansado e a mente saturada
Meu cansaço mora em tudo, mas principalmente na mente.
É o excesso de pensamentos. O excesso de expectativas. A sensação constante de que descansar é falhar.
Como se existir sem produzir fosse desperdício.
Meu corpo avisa. Em silêncio, quando estou em casa. Em explosão, quando o mundo exige demais e a irritação vira defesa.
Ele já deixou o recado claro:
“Estou cansado. A hora que eu travar, você vai ver só.”
Porque se a gente não para, o corpo encontra um jeito de parar por nós.
Trabalhar, resistir, atravessar
Há trabalhos que cansam mais pelo que consomem da alma do que pelo tempo que ocupam. Seguir neles exige esforço. Sair deles exige coragem.
Às vezes, o cansaço não é sinal de fraqueza. É sinal de que algo em você já entendeu o que a mente ainda tenta negociar.
O paradoxo final
A sociedade do cansaço não nos chicoteia. Ela nos convence.
Convence de que parar é perigoso. De que descansar é atraso. De que estar cansado é falha individual, e não sintoma coletivo.
Mas o corpo não se convence para sempre.
Ele sente. Ele cobra. Ele para.
E talvez o verdadeiro descanso não seja fazer menos. Mas parar de se exigir existir como máquina.
— b. monma✨
Como parar de se exigir como máquina?
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A gente não para de se exigir como máquina de uma vez. Começa percebendo quando a cobrança não vem mais de fora, mas de dentro. Questionando a culpa por descansar. Escutando o corpo antes de ele gritar.E, aos poucos, trocando desempenho por presença.
Não é simples, mas é possível.
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Excelente!
Um inspirado 2026.
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Obrigada. Que 2026 seja menos performance e mais consciência.
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Assim seja!
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