Quando a liberdade vira slogan e o povo vira estatística

Celebraram. Chamaram de libertação. Disseram que o mal tinha sido arrancado pela raiz. Que agora a Venezuela respiraria. Que Trump havia devolvido o futuro a um povo inteiro. Do lado de fora, parecia filme. Do lado de dentro, o povo continuava com fome.

O problema não é novo. A tragédia é antiga. Sempre que o Estado cresce em nome de salvar alguém, alguém acaba sendo esmagado por ele.

A operação que retirou Maduro do poder foi vendida como redenção moral: o fim do tirano, a queda do opressor, o início da democracia. Mas, na prática, ela obedeceu à lógica mais antiga do mundo: quem manda decide e depois explica.

Os Estados Unidos não agiram para libertar o povo venezuelano. Agiram para reorganizar influência, proteger interesses estratégicos, reposicionar poder no tabuleiro global e sinalizar força num mundo onde sua hegemonia já não é mais incontestável.
A Venezuela virou vitrine. O povo, custo operacional.

A China observa e constrói alianças. Não precisa disparar um único míssil para expandir sua presença. Investe, empresta, compra, conecta. Sua força é silenciosa e, justamente por isso, mais perigosa para quem ainda acredita que hegemonia se impõe só com tanques.

A Rússia, por outro lado, não tem pudor. Executa o trabalho sujo. Guerra aberta, invasões, confrontos diretos. O mundo finge se chocar, mas continua negociando.

E os Estados Unidos seguem presos ao teatro da moral: vendem cada movimento de poder como missão civilizatória. No meio desse jogo, a Venezuela não é país. É território. É petróleo. É posição geográfica. É símbolo. E o povo… o povo é quem paga.

Porque enquanto analistas discutem transição política e líderes discursam sobre democracia, há mães procurando remédio, crianças atravessando fronteiras, idosos sem comida, famílias vivendo com medo, agora não só do que sobrou do chavismo, mas também da presença de uma força estrangeira que não responde à sua dor, apenas aos seus interesses.

A captura de Maduro não resolveu a crise humanitária. Não restaurou instituições. Não reconstruiu hospitais. Não devolveu empregos. Não encheu prateleiras. Não acalmou ruas. O que ela fez foi aprofundar a instabilidade, gerar mais incerteza e colocar mais uma camada de poder sobre um povo que já vivia sufocado por excesso de poder.

Essa é a ironia: quanto mais o Estado promete salvar, mais o indivíduo desaparece. A liberdade, quando nasce de tanques, nunca chega leve. Ela chega sob vigilância. Chega condicionada. Chega endividada. Chega com medo.

E é por isso que tantas pessoas fora da Venezuela comemoram uma libertação que dentro dela ainda não existe. Porque é fácil celebrar conceitos. Difícil é sustentar vidas.

A verdadeira pergunta não é se Maduro caiu. É: quem protege o povo agora? E a resposta, até aqui, é desconfortável: ninguém.

O jogo continua. Os impérios reposicionam peças. As narrativas mudam. As bandeiras se reorganizam. E, como sempre, o povo segue pagando a conta de decisões que nunca tomou.

— b. monma✨

Publicado por Bruna Monma

Escritora e criadora de projetos autorais. Escrevo crônicas, reflexões e narrativas sobre identidade, tempo e o que não cabe em legendas. Acredito na palavra como forma de presença.

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