Liberdade, em tese, é fazer o que se quer. Sobrevivência é fazer o que se pode, dentro da condição financeira, emocional, psíquica que se tem. Em algum ponto da história recente, o básico deixou de ser ponto de partida e virou meta.
Trabalhar para comer. Trabalhar para morar. Trabalhar para continuar trabalhando. Descansar passou a exigir justificativa. Errar, planejamento. Desejar, culpa. Os sonhos não morreram. Foram ficando distantes. Não por falta de ambição, mas porque sonhar começou a parecer imprudente demais para quem precisa garantir o mês. Trabalha-se muito. Adapta-se o tempo todo. E ainda assim não se sai do lugar.
Conheço gente que trabalha há décadas. Pessoas que fizeram tudo “certo”. Que não pararam. Que não descansaram. Que envelheceram dentro do esforço. E mesmo assim continuam calculando mercado, adiando o médico, empurrando planos. Sempre um pouco mais cansadas. Sempre um pouco mais endividadas. Sempre se ajustando a um sistema que exige adaptação infinita e oferece horizonte nenhum.
A escravidão foi abolida mesmo? Ou só mudou de estrutura, de contrato, de linguagem? Antes, o controle era direto sobre o corpo. Hoje, é sobre a sobrevivência. Salários que não acompanham. Dívidas que não cessam. Instabilidade permanente. Não se prende mais pelo ferro, prende-se pela necessidade.
Não me surpreende que os índices de burnout tenham aumentado 493% no início do ano. Surpreendente seria se não tivessem aumentado. Um sistema que transforma o básico em conquista não adoece indivíduos, adoece coletivos.
Chamam de liberdade o que muitas vezes é apenas escolha limitada. Chamam de consumo consciente o que, na prática, é medo de não dar conta. Compra-se menos não por virtude, mas por cálculo. E quando se compra, vem a culpa. Como se sentir algum alívio fosse um erro moral.
Quem se beneficia disso? Talvez ninguém. Nem o próprio sistema, que depende dessas pessoas para continuar funcionando.
Quando sobreviver vira regra, a liberdade vira teoria. E toda teoria que não cabe no corpo, cedo ou tarde, entra em colapso. Talvez o que a gente chame de cansaço não seja fraqueza. Talvez seja lucidez. Talvez seja o corpo dizendo que viver não deveria custar tanto, e que insistir em chamar isso de normal já começa a parecer uma forma de violência.
–b.monma ✨