Cansaço, estímulo e a morte da autenticidade

Não é só cansaço, se fosse, dormir resolveria. O que sinto e vejo ao redor, é outra coisa. Uma espécie de saturação silenciosa. Como se tudo estivesse acontecendo o tempo inteiro, mas nada realmente me atravessasse. O corpo segue funcionando, respondendo, cumprindo. Mas a vida… vida passa como se não deixasse marcas.

Há sempre algo para ver, ouvir, responder, consumir. O silêncio virou falha. O tédio, quase um erro moral. Não saber o que fazer com o tempo virou sinônimo de improdutividade, quando talvez fosse apenas sinal de humanidade.

A gente desaprendeu a ficar, ficar sem preencher, ficar tempo suficiente para sentir.

O tédio nunca foi vazio. Era intervalo. Um lugar estranho onde o pensamento se soltava da obrigação de ser útil. Onde o desejo ganhava forma sem ser guiado por estímulos externos. Onde alguma coisa própria, e não imposta, começava a nascer. Hoje, qualquer fresta de tédio é imediatamente preenchida. Um gesto automático: o celular. Como quem tem medo de se encontrar consigo.

Talvez por isso as pessoas não saibam mais fazer nada sem distração paralela. Comer sem sentir o gosto. Ouvir sem escutar. Estar sem estar. Tudo acontece rápido demais para ser vivido até o fim. Os sentidos ficam rasos. A experiência não aprofunda. E quando a vida não aprofunda, algo se perde.

A autenticidade não morre no discurso. Ela morre no corpo. Morre quando a gente deixa de sentir com atenção. Quando não há tempo interno suficiente para que uma experiência se torne nossa. Aí repetimos. Referências, falas, gestos, opiniões. Não por falsidade, mas por afastamento. Porque já não habitamos o próprio ritmo. Vivemos reagindo ao ritmo imposto.

O cansaço entra aí. Não como fraqueza individual, mas como sintoma de um modo de vida que exige funcionamento contínuo. Um mundo que captura atenção, fragmenta presença e chama isso de normalidade. Um corpo cansado, mas produtivo, ainda serve. Um sujeito exausto, mas culpado por estar exausto, não questiona. Apenas tenta se ajustar melhor.

Descansar não resolve quando o problema não é falta de pausa, mas falta de experiência. Não é ausência de tempo livre, é ausência de tempo vivido. Tempo que não vira conteúdo, nem desempenho, nem resposta rápida. Tempo que só existe para ser sentido.

Talvez o gesto mais radical hoje seja sustentar o tédio. Não fugir dele. Não anestesiar. Ficar ali tempo suficiente para que algo verdadeiro apareça. Porque só quem suporta o tédio consegue voltar a sentir. E só quem sente, de verdade, pode ser autêntico.

No fundo, talvez não estejamos cansados demais para continuar, talvez estejamos cansados demais para viver de forma inteira.

-b. Monma

Este ensaio dialoga com estudos da neurociência, da psicologia cognitiva e da filosofia contemporânea, especialmente nas reflexões sobre atenção, estímulo constante, esgotamento psíquico e perda da experiência.

Publicado por Bruna Monma

Escritora e criadora de projetos autorais. Escrevo crônicas, reflexões e narrativas sobre identidade, tempo e o que não cabe em legendas. Acredito na palavra como forma de presença.

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