O mundo adoeceu, mas a consciência ainda respira

Perceber dói e talvez esse seja o preço mais alto de não estar anestesiada.

Há momentos em que o mundo parece apodrecer diante dos nossos olhos. Não porque o mal seja novo, ele nunca foi, mas porque, de repente, ele deixa de se esconder. O que estava nos bastidores sobe ao palco. O que era sussurro vira documento. O que era suspeita vira prova. E então o corpo reage antes que a razão encontre palavras: nojo, revolta, medo, impotência.

Não é só sobre crimes. É sobre impunidade. É sobre ver o poder atravessar gerações sem ser interrompido. É sobre crianças — sempre elas — pagando o preço de um sistema que se diz civilizado, moral, desenvolvido.

Quando esse tipo de verdade emerge, algo dentro da gente balança. A fé, inclusive. Porque cresce a pergunta que ninguém gosta de fazer em voz alta: como Deus permite? E logo depois vem outra, ainda mais incômoda: quem está falando em nome de Deus?

Talvez uma das maiores violências da história tenha sido essa: sequestrar o divino e colocá-lo a serviço de instituições que acumulam poder, silêncio e contradição. Transformar fé em hierarquia. Espiritualidade em controle. Culpa em método. Há igrejas que falam de amor com a boca, mas praticam medo com as mãos, e há fiéis que confundem obediência com bondade.

Em alguns instantes, o peso é tanto que a vida parece pequena demais para sustentar tudo isso. Surge o pensamento perigoso: pra que continuar? Não como desejo de morte, mas como exaustão de existir num mundo que parece falhar moralmente em níveis tão profundos.

Mas é curioso — e profundamente humano — que, logo depois do abismo, algo resista. Uma chama mínima. Uma certeza silenciosa.

A fé verdadeira não mora em instituições. Mora no que permanece apesar delas. No gesto justo quando ninguém está olhando. Na recusa em normalizar o horror. Na coragem de seguir vivendo pelas pessoas boas, mesmo quando o mal grita mais alto.

Porque elas existem. São maioria, ainda que não tenham holofote. Gente que cuida, protege, educa, denuncia, escreve, ama. Gente que escolhe não reproduzir a violência. Gente que não perdeu a capacidade de sentir nojo do que é nojento.

Talvez esperar que Jesus volte não seja apenas um desejo escatológico, mas simbólico: é o anseio por justiça, por verdade, por inversão de valores. Por ver os últimos serem os primeiros. Por ver o poder cair do lugar onde nunca deveria ter estado.

Enquanto isso não acontece, resta a nós sustentar o que ainda é sagrado: a consciência, a sensibilidade, a escolha diária de não se tornar aquilo que nos revolta.

O mundo pode estar doente, mas enquanto houver quem sinta, de verdade, ele ainda não morreu. E viver, nesse contexto, não é ingenuidade, mas sim resistência.

– b. monma

Publicado por Bruna Monma

Escritora e criadora de projetos autorais. Escrevo crônicas, reflexões e narrativas sobre identidade, tempo e o que não cabe em legendas. Acredito na palavra como forma de presença.

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