Não é que as pessoas não queiram amar, elas querem sim, desde que não demore, não complique, não exija presença demais e, de preferência, renda boas imagens.
Amar virou algo que precisa ser mostrado, sentir já não basta. É preciso registrar, postar, legendar, provar. O amor saiu do espaço íntimo e entrou para a lógica do conteúdo e conteúdo precisa performar.
Observando os casais ao meu redor, a sensação é a mesma: muita cena, pouco bastidor. Fotos felizes, frases prontas, declarações públicas. Mas quase nenhuma disposição para o que sustenta uma relação quando ninguém está olhando: tempo, silêncio, conversas difíceis, repetição.
Vivemos relações líquidas não por falta de sentimento, mas por pânico de profundidade. Tudo o que aprofunda exige permanência e permanência hoje soa como prisão.
O desejo, mediado pela performance, se adapta ao espetáculo, ou seja, ma-se melhor quando se é visto amando. A felicidade precisa ser convincente, o casal precisa parecer alinhado, leve, evoluído.
Qualquer crise vira falha de imagem, qualquer silêncio vira suspeita. As redes sociais entram como vilão e sintoma ao mesmo tempo. Elas não criaram a fragilidade, só a expuseram com filtros bonitos. Ofereceram a ilusão de infinitas possibilidades enquanto enfraqueciam a capacidade de sustentar uma escolha. Sempre parece haver alguém mais interessante, mais disponível, mais “compatível” logo ali, a dois cliques de distância.
E assim, o outro deixa de ser encontro e vira opção substituível, atualizável, descartável. O amor, porém, não funciona bem nesse formato já que ele exige entrega sem filtro, sem ângulo favorável, sem edição. Exige tempo, não o tempo acelerado do feed, mas o tempo repetitivo, imperfeito, às vezes entediante da vida real. Exige atravessar fases em que não há nada para postar. Dias em que não há frase bonita. Momentos em que o outro não confirma expectativas, não sustenta a imagem, não corresponde ao roteiro.
E é aí que muitos desistem, não por falta de amor, mas por incapacidade de sustentar o outro no tempo. O amor real exige fôlego e fôlego não combina com a lógica do stories, que desaparece em 24 horas.
Talvez o colapso do encontro não seja o fim do amor, mas o fim da paciência, da tolerância ao imperfeito, da disposição para permanecer quando o encanto vira trabalho.
E fechando esse ciclo, a pergunta retorna, agora mais grave: se o corpo virou produto e o amor virou conteúdo… o que fizemos do sagrado que só existe na presença?
—b.monma
Somos imperfeitos Monma. Que fazer? Passa um bom dia e cuida de ti.
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Somos imperfeitos, e ainda assim responsáveis pelo que construímos uns nos outros.
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