Pequenos prazeres que seguram a gente no mundo (e uns vícios que só jogam no lixo)

A vida adulta é um amontoado de boletos, ligações que poderiam ser e-mails e uma eterna tentativa de dormir mais cinco minutinhos. É um corre sem fim, e às vezes a gente se pega no piloto automático, só existindo, pagando contas e respondendo “tudo bem e você?” por pura força do hábito. Mas aí vêm eles. Os pequenos prazeres. Os momentos que seguram a gente no mundo.

Tipo um bom drink. Mas um bom drink mesmo, caprichado, bonito, com um gelo que parece ter sido esculpido por um monge budista em meditação profunda. O primeiro gole desce como um abraço interno, e então, devagar, tudo fica mais leve. A conversa flui, as preocupações encolhem, e até aquele ex que foi um erro monumental se torna um estudo de caso interessante, quase uma piada. Mas veja bem, é sobre curtir, não sobre virar um ser humano de bracinhos moles e neurônio solitário todo fim de semana porque a realidade dói demais para encarar sóbrio.

E depois, a comida. Ah, a comida. Se existe um motivo nobre para estar vivo, ele vem temperado e servido num prato lindo. Sentar num restaurante bom, pedir algo que faz a boca encher d’água, ver o garçom trazer aquele prato que parece uma obra de arte. O primeiro garfo, o sabor explodindo na boca, e pronto: instantaneamente mais feliz. Mas tem gente que, ao invés de saborear a vida assim, se afunda em coisa que só detona. Troca a alegria genuína do paladar pela anestesia barata do exagero. Escolhe a ressaca, a paranoia, o torpor. Troca um prato maravilhoso por um cigarro com gosto de morte e uma dose de sei lá o quê, servida num copo que fede a arrependimento.

Viajar, aliás, é uma das maiores provas de que a vida pode ser muito mais do que esse quadrado sem graça que algumas pessoas insistem em ocupar. É chegar a um lugar novo e sentir aquele choque gostoso de novidade, o frio na barriga de não saber exatamente onde está, mas amar cada segundo. Perceber que a vida não precisa ser um looping eterno de ressaca e bad trip, que existem sabores, culturas, cheiros e músicas esperando para serem descobertos. E que a gente pode, sim, buscar prazer sem precisar se arrastar feito um zumbi químico pelo caminho.

Mas nem tudo precisa ser tão longe. Existe um luxo maior que champanhe caro: acordar sem despertador. Abrir os olhos e não precisar chorar porque a realidade bateu forte demais. Sentir o corpo descansado, a alma leve. Respirar fundo e saber que o dia pode ser simples, sem precisar dopar a cabeça para parecer suportável.

E então vêm os dias de recarga. De filme no sofá enquanto chove. De comida gostosa na casa da família. De amigos rindo até a barriga doer. Daqueles momentos em que você olha em volta e pensa: como tem gente que troca isso tudo pelo nada absoluto? Pela alienação, pelo torpor, pela fuga constante da única coisa que vale a pena: sentir de verdade.

Talvez seja isso. Talvez o que sustente a gente nesse mundo não sejam as promessas de “só mais uma” dose, nem as noites que evaporam num blackout, nem os dias que se perdem no limbo do exagero. Talvez seja sobre os pequenos momentos. Os prazeres reais, simples, autênticos.

Ou talvez eu só precise de outro drink. Um bom, claro. Porque a vida já tem emoções suficientes – não precisa de anestesia.

Publicado por Bruna Monma

Escritora e criadora de projetos autorais. Escrevo crônicas, reflexões e narrativas sobre identidade, tempo e o que não cabe em legendas. Acredito na palavra como forma de presença.

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