E se eu tivesse nascido um dia antes?

Dizem que cada detalhe muda tudo. Uma borboleta bate as asas na China, e um motoboy se atrasa na minha cidade. O caos do universo é meticulosamente coordenado pelo acaso, e eu fico aqui, deitada na cama, olhando para o teto, me perguntando: e se eu tivesse nascido no dia 1º de agosto em vez do dia 2?

Porque, veja bem, eu gosto de números ímpares. Eles têm uma rebeldia bonita, uma coisa meio “não sou divisível por dois, me aceite assim”. Mas eu nasci no dia 2. Um número par. Um número que se dobra. Que se divide. Que se ajusta. E, cá entre nós, eu nunca fui muito de me ajustar.

Se eu tivesse nascido no dia 1, talvez minha personalidade fosse outra. Talvez eu fosse mais decidida, mais impulsiva, mais “chego antes da festa começar e nem espero o parabéns”. Talvez eu tivesse nascido de parto normal, porque pessoas que nascem no dia 1º me parecem determinadas assim, do tipo que já saem da barriga dando opinião. Mas não. Nasci no dia 2. Um número pacífico, diplomático, bem-comportado. O que é muito irônico, considerando que eu sou teimosamente do contra desde que me entendo por gente.

E se a mudança de data mudasse tudo? Se, por um capricho cósmico, essa antecipação de 24 horas fizesse com que eu escolhesse um curso diferente na faculdade? Ou um signo diferente no mapa astral? (Porque todo mundo sabe que 1º de agosto ainda é Leão raiz, mas dia 2 já começa a vir com um toque de canceriano arrependido.) Talvez, nascendo um dia antes, eu tivesse menos crises existenciais ou mais sorte. Quem sabe eu tivesse escolhido um nome artístico, me tornado influencer de lifestyle e estivesse agora postando um reels motivacional sobre “os benefícios de acordar às 5h da manhã” enquanto vocês, pobres mortais, tentam sobreviver ao café da manhã.

Mas não. Eu sou eu, nascida no dia 2, ainda encanando com os detalhes mais absurdos e fazendo do meu próprio nascimento um episódio inédito de “E Se?” da Marvel.

A verdade é que, no fim das contas, tanto faz se foi no dia 1, no dia 2 ou no dia 2000. A borboleta bateu as asas, eu nasci, cresci e cá estou: pensando demais sobre as coisas, cheia de teorias malucas e, claro, odiando um pouco o fato de que meu número de nascimento é tão par quanto uma planilha do Excel.

Publicado por Bruna Monma

Escritora e criadora de projetos autorais. Escrevo crônicas, reflexões e narrativas sobre identidade, tempo e o que não cabe em legendas. Acredito na palavra como forma de presença.

4 comentários em “E se eu tivesse nascido um dia antes?

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