O Avô e as Lições Silenciosas

Meu avô era aquele tipo raro de pessoa que parecia saber de tudo antes de todo mundo. Ele não precisava de muito para ser grande. Não era de palavras vazias, nem de gestos grandiosos. Era grande no silêncio, na postura. Sempre foi o pilar da nossa família, aquele que, com uma frase, conseguia deixar tudo mais claro. Ele vinha de um lugar simples, mas sempre soube como fazer as coisas acontecerem, como conquistar sem pressa, como poupar e aproveitar o que tinha. Naquela época em que as coisas eram feitas com mais calma, ele sabia exatamente onde colocar cada passo, cada sonho, e com isso construiu um legado que não era só de bens materiais, mas de caráter. Era alguém que, em sua sabedoria silenciosa, conseguia ensinar mais do que qualquer palestra motivacional por aí.

Ele tinha um hábito simples, mas que me marcou profundamente: andava de carro não para chegar a algum lugar, mas para ouvir música. E não era qualquer música, era a música – aquela que tem o poder de fazer tudo parar por um momento e te transportar para outra dimensão, sem pressa. Ele dizia que a vida precisa de momentos de pausa para ser apreciada de verdade. Talvez fosse isso que ele soubesse fazer tão bem: encontrar beleza até nas coisas mais simples. E eu, que puxei dele esse gosto por música, sempre me pego em momentos de trânsito, sentindo que a estrada não tem fim, só para continuar ouvindo aquela canção que me faz pensar em tudo o que ele me ensinou.

A vida dele não era feita de discursos complicados. Quando eu ficava perdida em alguma equação de matemática, ele aparecia com a calma que só ele tinha, dizendo: “Você vai entender, é só pensar com calma.” E eu, com aquele pânico de não saber o que fazer com as equações, achava que nunca ia conseguir. Mas, com o tempo, percebi que não era só de números que ele entendia – ele sabia que a vida também se resolvia com paciência e, acima de tudo, com foco. Às vezes, só é preciso parar, olhar para o que é simples, e seguir adiante.

E quando ele me dava aquele conselho, “corpo são, mente sã”, parecia mais uma lembrança, uma orientação que ele mesmo tentava seguir, mas que, na prática, nunca estava realmente disposto a aplicar em si. Ele sabia que o equilíbrio entre corpo e mente era fundamental, mas, vamos ser sinceros, ele preferia a companhia do sofá. E eu, que sempre pensei que poderia passar pela vida sem fazer muito esforço físico, só me dei conta de que ele estava certo quando a vida me puxou de volta para o corpo, para a saúde – e eu, teimosa, demorei para entender que mente sã realmente precisa de um corpo são. Mas ele, sempre lúcido, talvez soubesse que, um dia, a gente entende.

Um dia, a voz dele ficou rouca. Nada grave, pensaram todos. Como ele, que sempre teve tanta energia, poderia ser tocado por algo tão simples? Mas foi. Era um aneurisma, que se apresentou silenciosamente, sem que ninguém percebesse a gravidade. Ele, que sempre esteve no controle, já não estava mais. Foi para o hospital, fez os exames, mas não voltou. Ficou ali, num silêncio, assim como foi a vida dele, até o último suspiro. Ele, que sempre falava sobre ter o controle das coisas, agora não podia mais controlar nada. E esse foi o maior ensinamento de todos: a vida, por mais que a gente tente, nunca vai seguir os nossos planos.

Antes de tudo acontecer, ele já havia me dado um recado, num desses momentos em que ele parecia saber mais do que os outros: “Seja forte. Cuide do seu pai.” Ele estava certo, como sempre. Eu só não sabia o quanto aquilo ia fazer sentido mais tarde, quando ele se fosse. No dia em que soube, fui para a rede, como ele faria, e fiquei ali, pensando nele. Eu não sabia ao certo o que estava acontecendo, mas, de alguma forma, sabia que o silêncio dele ainda estava ali, me dizendo para ficar calma, para ser forte.

E então, olhei para o céu. Como ele sempre fazia quando queria se conectar com algo maior. Nas nuvens, eu vi o formato dele, como se estivesse me dizendo, uma última vez, que estava tudo bem. Que ele sabia de tudo. Eu sei, você deve estar pensando que é uma história estranha, mas o que é a vida, senão um jogo de sinais, de coincidências, de momentos em que parece que as coisas se alinham de maneira misteriosa? Aquelas nuvens, para mim, eram uma despedida, mas também um abraço. Algo que ele, de algum jeito, sabia como deixar: um recado sutil, mas claro, de que ele não estava realmente se despedindo.

Hoje, sempre que ouço uma música que ele amava ou vejo as nuvens dançando no céu, eu sinto que ele ainda está por aqui, me guiando de algum jeito. Talvez, o que ele deixou em mim não tenha sido um legado de riquezas ou grandes feitos, mas algo mais simples: a capacidade de parar, ouvir a música e entender que a vida é feita de pequenos momentos que, no fim, são os maiores de todos. E esse é o maior legado que ele me deixou. Porque ele sabia, mais do que ninguém, que o tempo não é algo que controlamos, mas o que fazemos com ele, sim. E, quando ele se foi, deixou nas entrelinhas de sua vida as maiores lições de todas.

Publicado por Bruna Monma

Escritora e criadora de projetos autorais. Escrevo crônicas, reflexões e narrativas sobre identidade, tempo e o que não cabe em legendas. Acredito na palavra como forma de presença.

5 comentários em “O Avô e as Lições Silenciosas

  1. Muitas vezes comentários e curtidas podem parecer meras cordialidades, e de fato são. No entanto, algumas vezes vão além disto, quando digo que aprecio como pensa (ou como encara a vida), tem sim sinceridade até pq é bom que ainda tenha quem faça essas introspecções, ainda mais quando tudo é tão corrido. Gosto tb de onde vc tira lições, tb aprendi muito com minha avó, até hoje uma referência (quem dera eu tivesse herdado tanta sabedoria)… Torço pra que continue na sua boa caminhada, afinal, a gente tende a torcer pelos iguais.

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    1. Acho que encontrar lições nas pequenas coisas e nas pessoas que amamos é um dos maiores presentes da vida. Sua avó, com certeza, deixou algo precioso em você. Obrigada por essa troca e pela torcida – torço também pelo seu caminho!✨

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