O Futuro Chegou e Eu Estava de Fone


A gente sempre imaginou que o futuro seria um evento grandioso, uma mudança radical que viria com carros voadores e robôs humanoides. Mas, na verdade, ele chegou silencioso e sorrateiro, se infiltrando nos nossos bolsos, nos nossos fones de ouvido, no nosso jeito de interagir com o mundo.

Eu só queria desligar a mente. Nada mais, nada menos. Escolhi Beethoven, porque dizem que música clássica ajuda a reduzir o estresse – ou foi isso que algum coach aleatório no Instagram me convenceu. Coloquei os fones, apertei o play e fui sugada pelos acordes intensos da Quinta Sinfonia. Ta-ta-ta-TAA.

Aí veio meu marido.

“Amor, olha isso aqui!”

Abri um olho, já sabendo que, se fosse um vídeo de receita ou de alguém caindo de um skate, não valeria a interrupção. Mas o que ele me mostrou foi outra coisa: um vídeo do TikTok de um óculos de realidade aumentada, com IA integrada, que responde perguntas e basicamente funciona como um assistente pessoal dentro da sua cara. Uma coisa meio Tony Stark encontra Black Mirror.

Na mesma hora, sem pensar, soltei:

• “Estamos oficialmente no futuro.”

O problema é que eu realmente senti isso. Não como uma brincadeira, mas como um insight profundo, quase místico – e o pior, ao som de Beethoven. Foi como se eu tivesse sido puxada para um túnel do tempo e aterrissado na constatação inevitável: o futuro não chegou como esperávamos, mas ele já está aqui, e ninguém mandou convite.

A Linha Invisível Que Cruzamos Sem Perceber


Em que momento exato o mundo deixou de ser analógico e se tornou digital? Quando foi que os telefones pararam de tocar e começaram a vibrar? Quando a escrita virou ditado? Quando a privacidade virou um conceito ultrapassado? Quando os espelhos começaram a reconhecer nossos rostos? Não dá para apontar uma data exata. Só sabemos que o que era estranho ontem, hoje é cotidiano – e o que é estranho hoje, amanhã será indispensável.

A verdade é que a gente sempre imaginou o futuro como algo grandioso e cinematográfico. Carros voadores, robôs servindo café, roupas prateadas e hologramas piscando por todos os lados. Mas não foi assim que aconteceu. O futuro chegou pingando em pequenas doses e a gente nem percebeu:

• Primeiro veio a Alexa, ouvindo nossas conversas e sugerindo coisas que a gente não falou, mas pensou.

• Depois os celulares passaram a reconhecer nosso rosto melhor do que nossa própria mãe.

• Agora temos óculos que pensam junto com a gente.

A questão é: o que vem depois?

Porque se eu já senti esse impacto existencial ao ver um óculos com IA, imagina quando inventarem algo realmente absurdo? Tipo um chip que escreve as crônicas por mim (será que já existe?). Ou uma assistente virtual que resolve minhas tretas emocionais? (Essa eu compraria).

E Agora?


A maior ilusão do ser humano sempre foi achar que ele entende o que está acontecendo. Mas a verdade é que estamos apenas tentando acompanhar. O que hoje parece o auge da tecnologia, amanhã será peça de museu. O que hoje nos assusta, amanhã será nostálgico. A pergunta não é “o que vem depois?”, mas sim “será que estamos prontos para aceitar o que vem depois?”

A parte mais assustadora não é a tecnologia em si. É o fato de que ela já está misturada na nossa rotina, e a gente nem estranha mais.

Eu lembro quando mandar áudio no WhatsApp era coisa de gente sem paciência, e hoje ninguém quer digitar três palavras sem usar o modo ditado. Lembro quando “computador de bordo” parecia um luxo futurista, e agora todo carro básico já fala com você. O ponto é: o que a gente ainda acha estranho hoje, mas que em poucos anos será tão normal quanto respirar?

Talvez, no futuro, eu nem precise escrever essa crônica. Basta eu pensar nela e minha IA vai transcrever automaticamente, com pontuação impecável. O problema é se ela decidir escrever melhor do que eu.

E Beethoven? Se ele vivesse hoje, será que usaria inteligência artificial para compor ou ficaria ofendido? Ou melhor: será que uma IA já está escrevendo sinfonias melhores que Beethoven, e a gente nem sabe?

O tempo dirá. Se é que o tempo ainda existe.

Publicado por Bruna Monma

Escritora e criadora de projetos autorais. Escrevo crônicas, reflexões e narrativas sobre identidade, tempo e o que não cabe em legendas. Acredito na palavra como forma de presença.

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