
Assisti àquela série nova da Netflix, Adolescência, e confesso que passei os 40 minutos com um aperto no peito e um milhão de pensamentos na cabeça. A câmera não pisca. A gente também não consegue piscar. Porque ali, naquela escola, naquela tensão toda, naquele menino perdido entre likes, ameaças e o peso de existir, mora uma geração inteira. Uma geração que respira pela internet e sangra pelo silêncio.
E aí eu penso: será que a gente está mesmo protegendo nossos filhos, nossos irmãos, nossos futuros, quando os deixamos trancados dentro de casa, achando que lá fora é perigoso demais? Será que o perigo não mudou só de endereço? Porque hoje o beco escuro pode ser uma DM no Instagram. O corredor da escola virou grupo no WhatsApp. O bullying, o ódio, a falta de afeto… tudo continua lá. Só que agora com filtro.
E enquanto a gente olha para o lado de fora, achando que a rua é o problema, o mundo digital vai educando, moldando e engolindo essas crianças. E o pior: sozinhas.
Tenho sentido isso na pele. Literalmente. Meu trabalho me colocou diante da geração Z com olhos de quem precisa contratar, ensinar, confiar. E, olha… não tá fácil. Não sabem contar troco, não sabem mexer num computador básico, não sabem olhar no olho. Às vezes, parece que estão com medo de viver. Como se o mundo fosse grande demais, intenso demais, cheio de “demais” — então é mais seguro ficar num lugar onde tudo é editável.
Mas a vida real não tem botão de desfazer. E talvez seja por isso que tantos estejam se perdendo.
Na série, uma frase ecoa até agora na minha cabeça: “Quem vê de fora, nunca sabe o que realmente está acontecendo.” E é exatamente isso. A gente nunca sabe. Por isso, talvez o maior erro que estejamos cometendo como sociedade seja confundir presença física com presença emocional. Estar perto não é o mesmo que estar junto.
E os meninos? Ah, os meninos… esses então, estão tão perdidos quanto as meninas. O feminismo abriu espaço, mas quem ensinou o que fazer com esse espaço? Em que momento explicaram a eles que masculinidade não precisa ser violência, que o papel do homem pode ser leve, presente, afetuoso? A desconstrução aconteceu, mas e a reconstrução?
A adolescência está gritando. Só que o grito mudou de forma: agora ele é silêncio, é sumiço, é um post apagado, é uma ausência disfarçada de autonomia.
E talvez, só talvez, a gente precise começar a abrir de novo as janelas. Não as do navegador, mas aquelas que dão vista pro mundo real, com suas ruas, encontros, desafios e aprendizados que não cabem num tutorial. Porque viver dá trabalho, sim. E é exatamente por isso que vale a pena.
– b. monma
Sou professora e, por diversas recomendações, estou morrendo de vontade de ver essa série e agora fiquei com ainda mais vontade. Seu texto está lindo e tocando e consigo pensar numa porção de pessoas que precisam ler. Salvei para compartilhar. Obrigada!
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Tati, que alegria ler seu comentário!
Fico muito feliz que o texto tenha te tocado assim — e mais ainda por saber que você é professora, alguém que vive de perto essa realidade com os jovens. A série realmente mexe com a gente, e é bom demais poder transformar essas reflexões em troca real, como essa. Obrigada por salvar, compartilhar e deixar esse carinho aqui.
Volte sempre — sua leitura por aqui faz toda a diferença!
Com afeto,
– b. monma
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Como pai e professor, tenho vivenciado isto na prática.
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