O milagre possível

Tem dias em que a gente acorda com vontade de ficar. Ficar em silêncio, ficar na nossa, ficar longe de tudo que pesa. Mas aí lembra que é Páscoa. Que tem almoço em família. Que tem presença marcada, cadeira reservada, e uma parte nossa que quer — apesar de tudo — estar lá.

Mas a verdade, que nem sempre a gente posta no feed, é que nem todo mundo à mesa traz leveza.

E tudo bem.

Tem gente que chega e a energia muda.

Não porque a gente é rancorosa, mas porque o corpo lembra o que a alma ainda não conseguiu esquecer.

Tem olhar que atravessa, tem sorriso que engana, tem conversa que machuca sem levantar a voz.

E a gente vai assim mesmo.

Com a roupa que fortalece.

Com o perfume que protege.

Com o coração blindado de quem já aprendeu a sorrir sem se entregar.

Porque tem fases em que o perdão ainda não veio — e não é falta de fé, é excesso de verdade.

E tudo bem também.

A ressurreição, às vezes, não acontece com luz e trombetas.

Às vezes ela é só um fio de paz puxado em silêncio no meio do caos.

É estar onde te feriram e ainda assim escolher não ferir de volta.

É não ceder ao jogo, mas também não sair da mesa.

É renascer aos poucos, só com o que ainda vale a pena.

Então, pra quem sente parecido:

te entendo.

Hoje, renasce só o que é seu.

O resto, você não precisa carregar.

Feliz Páscoa com leveza possível.

– b. monma

Publicado por Bruna Monma

Escritora e criadora de projetos autorais. Escrevo crônicas, reflexões e narrativas sobre identidade, tempo e o que não cabe em legendas. Acredito na palavra como forma de presença.

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