Capítulo 2- O tempo da infância: o que foi reprimido, o que foi dissolvido, o que sobreviveu

Infância é onde tudo começa — inclusive o que vai doer daqui a vinte anos.

É onde o tempo tem cheiro. Cheiro de terra molhada, de colo ou de medo.

Mas esse tempo não é o mesmo para todos.

Cada geração aprendeu o que era ser criança a partir do que o mundo podia oferecer — ou esconder.

👵 A infância da Geração Silenciosa (1928–1945)

Infância curta.

Interrompida por guerra, fome, ausência.

Ser criança era aprender a ajudar. A obedecer. A não incomodar.

Afeto era funcional: o necessário para manter vivo.

Brincar? Talvez, quando tudo estivesse limpo, feito e em silêncio.

São os que aprenderam cedo que o choro devia ser engolido — e nunca explicado.

👴 A infância dos Baby Boomers (1946–1964)

Brincaram na rua, subiram em árvores e ouviram muito “isso é coisa de menino” ou “isso é feio pra uma moça”.

A infância era mais livre no corpo, mas rígida nas emoções.

Amor era cuidado prático, não conversa.

A maioria cresceu com palmadas “pedagógicas” e frases que hoje causariam denúncia — ou reflexão.

São adultos que tentaram dar aos filhos tudo que não tiveram, mas sem saber bem como sentir o que não aprenderam.

🧑‍💼 A infância da Geração X (1965–1980)

Entre o autoritarismo e a liberdade tímida.

Brincaram sozinhos, voltaram da escola a pé, ouviram que “criança não tem querer”.

Muitos foram “pequenos adultos”: cuidavam dos irmãos, liam a Bíblia com a avó, assistiam novela das oito.

Tiveram infância com cheiro de terra, mas com pouca escuta emocional.

Aprenderam a se virar — e a calar.

📼 A infância dos Millennials (1981–1996)

A primeira geração que teve infância documentada em fotos, fitas e diários de escola.

Brincaram com bonecas, videogame, tamagotchi e também com os próprios medos.

Foram a transição: dos pais rígidos para os pais amigos.

Receberam afeto, mas também muita cobrança: “você é especial, vai ser alguém na vida”.

Hoje, carregam saudade de um tempo que parece mais simples — e culpa por não terem aproveitado melhor.

📱 A infância da Geração Z (1997–2012)

A infância digital.

Telas substituíram parques.

Likes substituíram olhares.

Pais ocupados, tempo fragmentado, excesso de estímulo.

Tiveram mais liberdade de expressão e menos tempo para viver sem medo.

Sabem falar de saúde mental, mas muitos nunca aprenderam a pedir colo.

🤖 A infância da Geração Alfa (2013 em diante)

Ainda se desenha.

Mas já mostra traços de dissolução.

Brinquedos com manual, YouTube como babá, inteligência artificial como companhia.

São crianças hiperestimuladas e afetivamente solitárias.

Vivem em casas seguras, mas às vezes sem presença.

A infância está virando conteúdo. E talvez o maior desafio seja devolver o tempo à experiência.

Em todas as gerações, a infância molda o que somos — mas também o que nos falta.

Onde houve silêncio, cresce a busca por escuta.

Onde houve excesso, cresce o desejo de leveza.

Onde houve trauma, cresce um adulto tentando se entender.

E talvez a pergunta mais importante para pais, educadores e terapeutas de hoje seja:

Que tipo de adulto estamos criando quando a infância se torna só mais uma fase para “preparar para o futuro”?

Cuidar de uma criança é cuidar do futuro.

Mas também é, inevitavelmente, reparar o passado.

-b.monma

Publicado por Bruna Monma

Escritora e criadora de projetos autorais. Escrevo crônicas, reflexões e narrativas sobre identidade, tempo e o que não cabe em legendas. Acredito na palavra como forma de presença.

3 comentários em “Capítulo 2- O tempo da infância: o que foi reprimido, o que foi dissolvido, o que sobreviveu

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