Por que procrastinamos tanto? (spoiler: dopamina, medo e um cérebro meio cagado)

Toda sexta tem texto novo dessa série aqui. Então se você, assim como eu, tá tentando virar adulto sem se sentir um completo fracasso, volta na próxima semana. A gente tropeça, ri, chora e tenta de novo — juntos.

Eu me pego postergando tudo que possa ser postergado. Tudo. Se der pra deixar pra amanhã, eu deixo. E o mais engraçado, ou triste, não sei, é que a única coisa que faço antes de qualquer prazo é sofrer por antecedência.

Meu corpo reage de formas bem criativas: ansiedade que parece um ninho de abelhas no peito, irritação que me faz querer rosnar pra quem respira do meu lado, uma fome estranha que não é fome de comida. Às vezes é a ansiedade que puxa esse fio, outras vezes é a irritação que vem primeiro, me lembrando que tem algo que não quero lidar.

E não sou só eu. Tem estudos pra provar. A Universidade de Calgary, no Canadá, publicou uma pesquisa mostrando que a procrastinação é menos sobre preguiça e mais sobre regulação emocional. Ou seja, a gente adia as tarefas não porque não sabe o que tem que fazer — mas porque não quer encarar o desconforto emocional que isso gera. Tipo medo de fracassar, medo de não ser bom o bastante, medo de começar e perceber que não era bem aquilo.

Outro estudo do Journal of Behavioral Therapy indica que o nosso cérebro vai direto naquilo que oferece recompensa imediata. Por isso é tão mais fácil abrir o Instagram do que abrir o e-mail do contador. O cérebro quer dopamina — aquela faísca rápida de prazer — e não burocracia, não responsabilidade, não contas.

Tem um caso clássico que li outro dia: um cara que precisou tomar remédio pra pressão aos 38 porque o trabalho dele era uma pilha de procrastinação acumulada. Ele adiava tanto tudo que vivia no estado “susto permanente” — o cortisol lá em cima, até o corpo gritar “chega”. Achei meio absurdo e ao mesmo tempo tão possível. Porque no fundo, cada vez que a gente adia o que precisa fazer, fica pagando juros emocionais altíssimos. Tipo um cartão rotativo, só que da alma.

Eu queria ser do tipo que resolve tudo cedo, que manda o arquivo, paga o boleto, faz a ligação chata sem nem suar. Mas a real é que ainda sou a adulta que aperta “adiar” no despertador da vida. Às vezes por preguiça, mas na maioria das vezes porque é dolorido demais encarar o que tá por trás: o medo de errar, de não dar conta, de me decepcionar — ou pior, de decepcionar quem espera algo de mim.

Enquanto isso, sigo assim: protelando, ansiosa, irritada… e escrevendo sobre isso, como quem confessa num diário pra ver se alivia o peso. E de algum modo, sempre alivia.

No fim, acho que todo mundo tá tentando fingir um pouco de controle, né? Uns adiam porque têm medo, outros porque têm preguiça, outros porque o peito aperta e o corpo não deixa. Eu adio por tudo isso junto, embaralhado, num combo que às vezes me faz duvidar até de mim.

Mas se você também sente isso, fica tranquilo. A gente tá junto, empurrando o que dá pra empurrar, respirando fundo no que não tem mais como adiar, e torcendo pra, no meio do caminho, aprender a ser mais gentil com a gente mesmo. Talvez seja isso ser adulto: falhar, se irritar, procrastinar… e ainda assim continuar tentando.

-b.monma

Publicado por Bruna Monma

Escritora e criadora de projetos autorais. Escrevo crônicas, reflexões e narrativas sobre identidade, tempo e o que não cabe em legendas. Acredito na palavra como forma de presença.

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