Entre o feminismo e o silêncio

Escrever, pra mim, é uma forma de cura. Não escrevo pra ser lida, escrevo pra existir.

Mas ainda assim me escondo.Como se mostrar minha palavra fosse o mesmo que tirar a roupa diante do mundo. Talvez por isso admire tanto as mulheres que ousaram se despir em público não de corpo, mas de alma. As que transformaram vergonha em ensaio, dor em poesia, vazio em verbo. Tati Bernardi, Marta Medeiros, Ruth Manus, Fernanda Young, Clarice Lispector, todas falaram do que eu mesma não sabia dizer, mas já sentia antes de aprender as palavras.

No entanto, às vezes me pergunto: será que ainda escrevemos pra mudar o mundo ou apenas pra provar que ainda sabemos sentir?

O feminismo, que nasceu como fogo, hoje parece mais um palanque. E o que era pra ser uma revolução interna virou manchete.

Entre o feminismo e o patriarcado, o feminino segue lutando só que agora cansado, confuso, dividido.

A mulher da era digital não queima sutiãs, queima tempo, energia e essência tentando se provar útil, produtiva, desejável e politicamente correta, tudo ao mesmo tempo.

Somos as herdeiras do caos e das que vieram antes, mas, diferente delas, já não sabemos contra o que estamos lutando.

As antigas queriam voz. Nós, talvez, tenhamos esquecido o propósito.

E eu sigo aqui, escrevendo no escuro, não pra ser vista, mas pra lembrar que a cura também tem timidez.

Porque toda mulher que escreve, no fundo, ainda está tentando sobreviver a si mesma.

— b. monma

(O que herdei do tempo, 1975–2025)

Publicado por Bruna Monma

Escritora e criadora de projetos autorais. Escrevo crônicas, reflexões e narrativas sobre identidade, tempo e o que não cabe em legendas. Acredito na palavra como forma de presença.

Deixe um comentário

Crie um site como este com o WordPress.com
Comece agora