Quando os sistemas começam a gritar

Há um momento na história em que as estruturas deixam de governar — e passam a implorar por sobrevivência.

Existe um instante muito específico em que o mundo muda de temperatura.

Não é quando a verdade aparece. É quando ela deixa de caber no roteiro.

Os sistemas, então, fazem o que todo organismo em agonia faz: reagem. Não com lucidez — com instinto. Não com grandeza — com reflexo. Eles gritam, endurecem, aceleram, teatralizam. Criam inimigos. Vendem “ordem”. Acenam com segurança como quem oferece um cobertor para uma casa em chamas.

E quase sempre o público confunde esse barulho com força.

Mas o barulho, na maioria das vezes, é só medo.


O capitalismo americano: riqueza por cima, exaustão por baixo

O capitalismo americano — esse que prometeu prosperidade, liberdade e mobilidade social — hoje caminha mancando, sustentado por uma engrenagem que produz riqueza como nunca e distribui angústia com a mesma eficiência.

Ele transformou saúde em mercadoria, descanso em culpa, tempo em moeda, e gente em KPI. Vendeu a ideia de que “tudo é possível” e, no caminho, criou uma geração inteira vivendo com a sensação de que qualquer erro é uma sentença.

Quando um sistema só funciona para poucos, ele precisa de propaganda para muitos.

E quando a propaganda começa a falhar, ele começa a trocar persuasão por força — ou por espetáculo.


O socialismo venezuelano: promessa de justiça, prática de controle

Do outro lado, o socialismo venezuelano — que nasceu prometendo justiça, igualdade e dignidade — envelheceu dentro de sua própria contradição: um Estado pesado, sufocante, corroído por corrupção, onde o discurso de proteção virou instrumento de controle e a sobrevivência do projeto passou a valer mais do que a vida concreta de quem deveria ser protegido por ele.

Quando uma ideologia vira blindagem de poder, ela para de servir ao povo e passa a servir a si mesma.

E quando isso acontece, o povo deixa de ser cidadão e vira refém.


Dois modelos, o mesmo sintoma

Ambos falharam. Ambos traíram seus próprios princípios. Ambos estão cansados. E ambos sabem disso.

Por isso, quando as tensões aumentam e os gestos ficam extremos, eu não vejo “força”. Eu vejo desespero.

Desespero é quando um sistema precisa performar que ainda tem controle — porque por dentro ele já não tem.

Desespero é quando líderes começam a tratar o mundo como vitrine: iluminam o que convém, quebram o que ameaça, e chamam de “necessário”.

O problema não é capitalismo versus socialismo.
O problema é quando qualquer sistema se afasta da vida humana real — e passa a existir apenas para se manter vivo.


E, como sempre, quem sofre é o povo

O trabalhador que não consegue mais sustentar a família.

A mãe que escolhe entre comida e remédio.

O jovem que herda um futuro já hipotecado.

O idoso que trabalhou a vida inteira para envelhecer com insegurança.

Quem paga a conta não são os líderes, nem os acionistas, nem os generais, nem os ideólogos.

É o povo — sempre o povo — atravessando os escombros das promessas que nunca se cumpriram.


O perigo do nosso tempo

Talvez o maior perigo do nosso tempo não seja a ruína dos sistemas.

Seja a insistência em fingir que eles ainda funcionam.

Porque quando um sistema não consegue mais entregar dignidade, ele começa a entregar narrativa.

E quando a narrativa não basta, ele entrega medo.

E quando o medo vira linguagem oficial, o mundo inteiro fica mais perto do colapso do que da solução.

— b. monma

Publicado por Bruna Monma

Escritora e criadora de projetos autorais. Escrevo crônicas, reflexões e narrativas sobre identidade, tempo e o que não cabe em legendas. Acredito na palavra como forma de presença.

3 comentários em “Quando os sistemas começam a gritar

  1. Creio que com as notícias de hoje todas as pessoas aqui no Brasil estão bastante consternadas, embora não surpresas. O mundo está meio instável.
    Amei sua análise social. Você pode se tornar uma psicanalista, que tal?

    Curtido por 2 pessoas

    1. Confesso que às vezes penso nisso, sim, mas acho que eu teria dificuldade em não esboçar minhas próprias reações e pensamentos no meio da sessão 😂
      Talvez eu funcione melhor como observadora do mundo e tradutora do que sinto em palavras.

      Curtido por 1 pessoa

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