Quando tudo é urgente, nada é sagrado

Houve um tempo em que o dia não era medido em notificações.
O tempo passava pelo corpo, pelo sol, pela fome, pelo cansaço.
Até que alguém decidiu capturá-lo.

O relógio mecânico não nasceu neutro.
Ele nasceu para organizar fábricas, turnos, produção.
Para transformar horas em rendimento.
Minutos em desempenho.
Segundos em lucro.

Desde então, o tempo deixou de ser vivido — passou a ser cobrado.

A produtividade virou virtude.
A pressa, sinal de importância.
E o silêncio… virou desperdício.

Hoje, tudo é urgente.
Responder rápido.
Produzir sempre.
Dar conta.
Acompanhar.
Não ficar para trás.

Mas quando tudo é urgente, nada é sagrado.

Porque o sagrado exige demora.
Presença.
Espaço vazio.
O sagrado não aceita cronograma apertado, ele acontece quando há escuta.

A espiritualidade, em qualquer tradição, sempre foi o oposto do relógio.
Ela mora no ritmo interno.
No tempo que não serve para nada, a não ser para existir.

E é aí que a minha relação com o silêncio começa.

O silêncio nunca foi ausência para mim.
Sempre foi um lugar.
Um lugar onde a oração não precisa de palavras bonitas.
Onde escrever não é produzir, é sobreviver.
Onde eu não preciso chegar a lugar nenhum.

Quando silencio, o mundo desacelera.
Não porque ele muda, mas porque eu deixo de correr atrás dele.

A escrita nasce desse mesmo espaço.
Não do prazo.
Não da performance.
Mas da escuta.

Toda vez que tento encaixar oração em agenda, ela seca.
Toda vez que tento escrever como tarefa, o texto morre antes de nascer.

Porque espiritualidade não cabe em planilha.
E criação não respeita alarme.

O cronograma quer controle.
A fé pede entrega.
A produtividade exige resultado.
O sagrado pede presença.

Talvez o grande cansaço do nosso tempo não seja físico.
Seja espiritual.

Estamos exaustos porque transformamos tudo em meta, até a vida interior.
E quando fazemos isso, perdemos justamente o que nos sustenta.

Silenciar, hoje, é um ato radical.
Orar sem pedir nada é resistência.
Escrever sem intenção de performar é um gesto de coragem.

Quando tudo é urgente, nada é sagrado.
E talvez reaprender a viver seja, antes de tudo,
reaprender a parar.

– b. monma

Publicado por Bruna Monma

Escritora e criadora de projetos autorais. Escrevo crônicas, reflexões e narrativas sobre identidade, tempo e o que não cabe em legendas. Acredito na palavra como forma de presença.

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