O bolo, o circo e o sistema falido

Aprendi uma metáfora que nunca mais saiu da minha cabeça: a esquerda reparte o bolo, a direita faz o bolo crescer. O problema é que chegou uma hora em que não tem mais bolo pra repartir. Mas não porque ele não cresceu. Cresceu, e muito.

O Brasil não quebrou economicamente por falta de recurso. Quebrou moralmente e institucionalmente. Quando se olha para a quantidade de dinheiro que circula, fica evidente: alguém ganhou. E ganhou muito.

Enquanto isso, a maioria disputa migalhas com discurso de banquete. O Estado se tornou o maior comedor desse bolo. E junto dele, todos os que aprenderam a mamar nas tetas do governo — não por necessidade, mas por conveniência.

Criou-se um sistema onde poucos se alimentam bem enquanto muitos são entretidos com narrativas. Narrativas substituíram soluções. E o debate político virou um circo.

A esquerda insiste em métodos ultrapassados, muitas vezes ignorantes da realidade atual. A direita vende a fantasia de crescimento infinito sem combinar para quem. E no meio disso tudo, surgiu algo talvez ainda mais perigoso: a idolatria política.

Políticos viraram figuras messiânicas. E quando a política vira religião, qualquer crítica vira heresia.

O resultado é um sistema falido, sustentado por um jogo de empurra: o Estado não se responsabiliza, os representantes não se responsabilizam, e o povo é tratado como plateia, não como parte da engrenagem.

Vivemos numa democracia, mas sem responsabilidade compartilhada. Direitos são exigidos. Deveres, terceirizados.

Talvez por isso me veio à cabeça a antiga política do “café com leite”. Não como nostalgia ou defesa, mas como provocação. Não se tratava de justiça. Tratava-se de pacto. Hoje não falta ideologia. Falta acordo mínimo. Falta compromisso com o básico.

Se houvesse um “café com leite” contemporâneo, ele não deveria garantir poder, deveria garantir respeito e dignidade básicos para todos, antes de qualquer discurso.

O problema não é esquerda ou direita. É um sistema que escolheu sobreviver de si mesmo, e não daquilo que deveria sustentar.

Enquanto isso, o bolo continua sendo mostrado em propagandas. Mas servido só para quem já está sentado à mesa.

b. Monma

Publicado por Bruna Monma

Escritora e criadora de projetos autorais. Escrevo crônicas, reflexões e narrativas sobre identidade, tempo e o que não cabe em legendas. Acredito na palavra como forma de presença.

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