A culpa nunca é neutra, ela tem gênero, tem endereço e costuma chegar antes dos fatos. Em All Her Fault, a pergunta nunca é exatamente o que aconteceu. A pergunta real é: onde ela falhou?
A maternidade aparece ali não como vínculo, mas como tribunal permanente. Cada gesto da mãe é reinterpretado como erro em potencial. Confiou demais. Trabalhou demais. Relaxou demais. A mulher nunca está no ponto certo e, por isso, nunca é inocente.
Não importa o contexto, a culpa sempre encontra as mães porque a sociedade precisa que alguém sustente emocionalmente o que os outros não conseguem elaborar.
Enquanto isso, os homens orbitam a narrativa de outra forma, não são cobrados com a mesma ferocidade afetiva. Podem ser ausentes, confusos, emocionalmente indisponíveis, isso raramente vira acusação central. Vira pano de fundo. Vira “limitação”. Vira silêncio tolerado. Aqui entra um ponto-chave que a série escancara sem nomear: fragilidade identitária masculina.
Fragilidade identitária não é falta de amor. É falta de eixo interno. É quando alguém só sabe existir a partir da função que ocupa. Quando não sustenta quem é sem ser necessário, útil, indispensável. Quando confunde vínculo com papel, amor com centralidade, presença com controle. Esse tipo de identidade não suporta autonomia alheia. Não suporta crescer junto. Não suporta deixar ir.m e quando entra em crise, precisa de um amortecedor.
A culpa feminina cumpre exatamente essa função, se o homem é emocionalmente ausente, a mulher “não sustentou o vínculo”. Se ele colapsa, ela “não cuidou direito”. Se algo sai do controle, pergunta-se onde a mãe errou, nunca por que ele não elaborou sua própria ausência emocional.
A culpa feminina funciona como cola simbólica. Ela mantém de pé uma estrutura afetiva frágil, impedindo que o vazio masculino se torne crise real, responsabilização, amadurecimento. Por isso a maternidade é um território tão vigiado. Porque o filho não é apenas uma criança, é o último lugar onde a fragilidade identitária tenta garantir permanência.
A série toca num ponto perigoso: nem todo gesto extremo nasce do ódio, alguns nascem do medo de deixar de ser relevante. É aí que controle começa a se disfarçar de amor. Vigilância vira cuidado. Posse vira proteção. Dependência vira “instinto”.
A sociedade romantiza esse movimento porque ele mantém tudo funcionando. Chama de zelo. De excesso de amor. Mas o nome real é outro: dependência afetiva não elaborada.
Em contraste, o amor materno saudável aparece de forma silenciosa e quase incômoda. Não é heroico. Não é idealizado. É ético. Ele protege sem possuir, ama sem exigir centralidade, aceita o risco porque entende que amar não é garantir permanência. O amor de mãe quer que o filho viva apesar dela. O amor adoecido quer que o outro exista por causa dele.
Outro movimento constante na narrativa é a tentativa de rivalizar mulheres. Quem é a melhor mãe. A mais confiável. A mais estável. Essa rivalização não nasce entre elas. É implantada por um sistema que prefere mulheres se julgando
a mulheres questionando a estrutura.
Quando uma mulher sai do jogo, quando não compete, não explica, não sustenta, isso soa radical. Porque num mundo que espera que mulheres aguentem tudo, sair é subversivo.
No fim, All Her Fault não é sobre um crime específico. É sobre um padrão recorrente, a lógica de que, independentemente do que aconteça, a culpa sempre será feminina. E de que a indisponibilidade emocional masculina seguirá sendo tolerada, protegida e absorvida pelo corpo das mulheres.
O suspense termina, o diagnóstico permanece.
–b. Monma