Há coisas que a gente descobre sem querer. Um link, um documento, uma leitura que começa quase por curiosidade e termina como um rasgo.
O problema não é apenas o que está escrito, é o depois.
Depois de saber, não dá mais para seguir a vida como se nada tivesse acontecido. Mas também não dá para parar o mundo, prender os culpados, consertar o sistema. E é nesse intervalo, entre o saber e o não poder, que nasce uma angústia nova, silenciosa e profunda. Não é medo, é nojo.
Um nojo que não é só físico, é existencial. Porque o que se revela não é apenas um crime, mas um mecanismo. Uma engrenagem onde poder, dinheiro, silêncio e normalidade convivem sem conflito aparente.
O mais perturbador não é descobrir que isso existe. É perceber que isso coexistiu, e ainda coexiste, com o mundo funcionando normalmente.
As bolsas abriram, os jantares aconteceram, as carreiras seguiram, os foguetes decolaram. Aliás, talvez esteja aí uma boa metáfora para o nosso tempo. Enquanto consciências seguem rastejando, a tecnologia avança a passos largos.
Bilionários falam em colonizar Marte, salvar a humanidade, expandir fronteiras, mas parecem incapazes de resolver o básico: ética.
Às vezes dá vontade de soluções absurdas, porque as reais parecem inexistentes. Não de violência, mas de afastamento simbólico, colocar essa turma toda num foguete e mandar universo afora. Não por ódio, mas por repulsa. Como quem diz: isso não nos representa mais como humanidade. O problema não é o foguete e sim quem está no comando, e o que carrega consigo.
Saber disso cria um tipo de fratura interna, porque a consciência tenta fazer algo com a informação e não há ação possível à altura. Não é um problema individual. Não se resolve com indignação performática, posts revoltados ou cancelamentos seletivos. É maior. Estrutural. Antigo.
E aí surge a sensação mais difícil de todas: impotência. Mas não aquela impotência preguiçosa, que desiste. É a impotência lúcida de quem entende que o mal não está só nas pessoas, mas na arquitetura que as protege.
O que ninguém conta é que saber demais também cansa. O corpo entra em alerta. A mente começa a procurar sinais em tudo. O mundo perde a leveza, não porque ficou pior, mas porque a ilusão caiu.
Existe uma violência secundária nisso: a de ter que continuar vivendo em um mundo que parece ignorar o que você agora não consegue mais ignorar.
E, ainda assim, viver é necessário. Não como fuga, mas sim como resistência. Porque há algo que o sistema não suporta: gente que vê e não se anestesia. Gente que sabe e não transforma o horror em espetáculo. Gente que não normaliza, mas também não se destrói tentando carregar o mundo sozinha.
Talvez o papel de quem sabe não seja salvar, nem denunciar aos gritos. Talvez seja lembrar.
Lembrar que nem todo progresso é avanço, que nem toda fortuna é mérito, que nem toda normalidade é saudável. E, principalmente, lembrar que sentir nojo é um sinal de sanidade.
O perigo não está em saber. O perigo está em não sentir nada. Depois de saber, a vida muda.Não para algo mais leve, mas para algo mais honesto. E isso, por mais doloroso que seja, ainda é uma forma de dignidade.
— b. monma