O brasileiro que espera um milagre com troco de pão

Conheço gente que joga na loteria todos os dias.

Todos. Os. Dias.

Gente organizada. Trabalhadora. Gente que paga boleto antes do vencimento e guarda o comprovante numa pastinha.

Há anos.

Nunca ganhou mais do que o suficiente para pagar outro jogo, é quase poético. A pessoa não ganha dinheiro, ganha continuidade.

Se tivesse investido o valor de cada aposta em qualquer coisa minimamente previsível, estaria comemorando rendimentos, falando de dividendos no almoço de domingo, ensinando o sobrinho a abrir conta numa corretora.

Em vez disso, escolhe abrir o aplicativo da loteria e sonhar.

A loteria oferece o que o mercado financeiro nunca soube vender: clímax, fogos, entrevista chorando na televisão, parentes reaparecendo do nada, mudança de bairro sem precisar mudar de personalidade. Investimento não tem trilha sonora, tem planilha.

O brasileiro médio não quer planilha, quer cena final de novela.

Existe algo muito íntimo em preferir a estatística improvável ao crescimento lento. É quase um romance tóxico com o destino. A pessoa sabe que a chance é mínima, ri da própria ingenuidade, paga o boleto da esperança e diz “vai que”.

Vai que Deus resolve dar uma piscadinha.

Enquanto isso, o dinheiro que poderia virar patrimônio vira expectativa, a expectativa vira hábito, o hábito vira tradição e tradição ninguém questiona.

É mais confortável acreditar que um sorteio resolve tudo do que aceitar que disciplina resolve quase tudo. Disciplina é silenciosa. Não vira manchete. Não dá para postar no grupo da família.

Ganhar na loteria muda de vida de uma vez, investir muda de vida devagar. E o brasileiro, acostumado a sobreviver a sobressaltos, aprendeu a confiar no susto.

O problema é que milagre não aceita débito automático, ele aparece quando quer. Se quer.

Enquanto isso, o fundo imobiliário pinga rendimento sem glamour, sem entrevista, sem primo distante. Só constância e constância não seduz.

Seduz a possibilidade de acordar milionário numa terça-feira qualquer, ligar para o chefe e pedir demissão com voz calma.

É sobre isso que se compra quando se compra um bilhete: a fantasia de não precisar aguentar mais nada. Não é burrice. É cansaço. Só que cansaço também rende juros e esses, ninguém calcula.

-b.monma

Publicado por Bruna Monma

Escritora e criadora de projetos autorais. Escrevo crônicas, reflexões e narrativas sobre identidade, tempo e o que não cabe em legendas. Acredito na palavra como forma de presença.

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