Relato de uma sobrevivente do próprio dia

Comecei o dia lutando com o despertador. Quer dizer, lutando é um exagero. Eu só perdi mesmo. Adiei uma, duas, duzentas vezes, na ilusão de que cinco minutos fariam alguma diferença na minha vida. Spoiler: não fizeram.

Levantei com a energia de um celular no modo economia, mas decidi começar o dia relax. Namorei meu amor, na tentativa desesperada de entrar no mood “zen”. Não sei se relaxei ou só me dei conta de que, enquanto isso, meu dia já estava começando sem mim e o caos me esperava lá fora, impaciente.

Fui me arrumar, meu momento terapêutico diário, aquele em que a maquiagem esconde a exaustão e o look bem montado me faz acreditar que estou no controle da vida. Ilusão? Talvez. Mas é sobre isso.

Cheguei no trabalho e, antes das 10h, já era um polvo. Cada tentáculo resolvendo um BO diferente, enquanto a cabeça só queria um café e um passe livre para fugir para as Maldivas. Mas não, fiquei firme.

Almoço? Ah, que conceito interessante. O meu aconteceu depois das 14h, porque antes disso eu estava sendo CEO, contadora, social media, operadora de telemarketing e, em alguns momentos, um call center humano.

Antes de almoçar, claro, passei no mercado. E em outro mercado. Porque a minha vida é assim: trabalho o dia inteiro, mas faço compras como se fosse uma influencer de vida tranquila e organizada.

Finalmente em casa, almocei, guardei as compras, dei aquela respirada funda de “eu aguento”, e voltei pro trabalho às 15h27. Sim, pontualmente 15h27, porque minha vida não tem nem a dignidade de ser organizada em números redondos.

Botei o financeiro em ordem, fiz propaganda, cobrei cliente, planejei a semana seguinte, dei uma olhadinha no abismo existencial e continuei vivendo.

Se não chover, vou no beach tennis. Se chover, o que vai acontecer é o colapso do meu sistema nervoso. Preciso urgentemente acertar umas bolinhas, antes que eu resolva acertar pessoas.

Depois, jantar com meu melhor amigo, que chegou faz mais de uma semana e até agora só me viu em forma de áudio no WhatsApp dizendo “meu Deus, preciso te ver”. Hoje não passa. Se passar, minha amizade entra com pedido de falência.

Ainda preciso dar atenção ao meu marido, porque aparentemente casamento não é só sobre dividir boletos, e também aos meus pais, que moram em outra cidade e me lembram disso com mensagens carinhosas do tipo: “sumida, né?”

E no fim, vou dormir. Quer dizer, tentar. Às 2h. Acordar às 7h. Porque meu dia precisava de 32 horas, mas me deram só 24 e ainda me disseram para ser feliz. Como vive? Não sei. Mas amanhã faço tudo de novo.

Publicado por Bruna Monma

Escritora e criadora de projetos autorais. Escrevo crônicas, reflexões e narrativas sobre identidade, tempo e o que não cabe em legendas. Acredito na palavra como forma de presença.

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