Devotion

Enquanto tocava Devotion, eu senti como se alguém tivesse tirado o ar do ambiente e me deixado ali, parada, respirando só pelas beiradas.

A voz dele vinha falhando de propósito, quase como quem diz: “olha, isso aqui é o máximo que eu consigo dar agora, e espero que seja suficiente”. E no fundo, era. Porque não era perfeito, era humano — e, de algum jeito, isso me abraça mais do que qualquer grande promessa impecável.

Fiquei pensando no quanto a gente se debate pra caber na expectativa do outro, pra parecer seguro, pra ter um discurso bonito que esconda o medo. Mas no fim, tudo o que a gente quer é alguém que fique mesmo quando não tem espetáculo. Alguém que olhe pra dentro do caos e ainda assim escolha ficar.

Devotion me fez lembrar do quanto é raro ter quem encoste de verdade na tua alma. Quem veja teus recortes tortos, teus exageros, tuas falhas, e ainda assim diga: “é aqui que eu quero estar.”

E enquanto ele cantava isso, eu me dei conta do tamanho do presente que é ter esse alguém. Porque no meio do som cru, das batidas irregulares, do violão quase desafinado, ficou claro pra mim que a maior devoção não é dizer “eu te amo” — é dizer “eu escolho você, mesmo sabendo de tudo”.

E eu escolho também. Todos os dias.

– b. monma

Publicado por Bruna Monma

Escritora e criadora de projetos autorais. Escrevo crônicas, reflexões e narrativas sobre identidade, tempo e o que não cabe em legendas. Acredito na palavra como forma de presença.

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