Sobre sombras e a mulher que escolho ser

Às vezes acho que estou no meio de uma travessia estranha: entre a mulher que esperaram que eu fosse e a mulher que eu, teimosa, decidi ser.

É um caminho meio solitário, confesso. Porque a cada passo deixo pra trás uma expectativa, um rótulo, uma conveniência que fazia minha vida caber melhor nos olhos dos outros.

Mas não tem como carregar tudo.

E eu cansei de andar torta só pra caber.

O problema é que, vez ou outra, me pego duvidando: será que estou mesmo me libertando ou só arrumei outro jeito de sabotar o que poderia ter dado certo?

Porque a sombra é ardilosa.

Ela se disfarça de coragem quando é fuga.

Veste a fantasia de autenticidade quando é só medo de intimidade.

Por isso eu vivo me perguntando: isso vem do meu centro ou é só o meu ressentimento fantasiado de revolução?

É luz ou é só mais um jogo do ego tentando não sofrer?

No fundo, acho que crescer é isso: aprender a distinguir o que é escolha genuína do que é só reação.

E ter paciência pra lidar com o tanto de vezes que a gente vai errar a mão.

Mas tudo bem.

Porque ser quem decidir ser, ainda que tropeçando, já é infinitamente mais honesto do que seguir o script de alguém que não sou eu.

– b. monma

Publicado por Bruna Monma

Escritora e criadora de projetos autorais. Escrevo crônicas, reflexões e narrativas sobre identidade, tempo e o que não cabe em legendas. Acredito na palavra como forma de presença.

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