Existe um tipo de ausência que não abandona, não grita, não machuca de forma explícita. Ela acontece em silêncio, é a ausência emocional. Pais emocionalmente ausentes não eram frios, negligentes ou indiferentes. Na maioria das vezes, eram presentes, trabalhavam, cuidavam, protegiam. Mas não sabiam escutar o que não sabiam nomear. Eles também aprenderam a engolirContinuarContinuar lendo “Pais emocionalmente ausentes não sabiam que estavam ausentes”
Arquivos da categoria: sociedade moderna
A máscara social
Eu sempre fui muito eu. Desde pequena. Vaidosa, criativa, sentimental. Sempre tive um senso muito claro do que me incomodava e do que fazia sentido pra mim. Nunca gostei de dormir no quarto dos meus pais. Parei de usar fralda muito cedo porque aquilo me incomodava. Quando perdi a chupeta, chorei a noite inteira, masContinuarContinuar lendo “A máscara social”
Entre flores e estatísticas
Ser mulher exige uma certa elasticidade emocional, a gente aprende cedo. Primeiro nos ensinam a ser delicadas, depois a ter personalidade, depois maturidade, depois pedem que a gente não seja tão intensas. Quando somos jovens dizem que somos dramáticas, aí amadurecemos e dizem que estamos frias, quando falamos com firmeza dizem que estamos bravas. ExisteContinuarContinuar lendo “Entre flores e estatísticas”
Curar a própria infância não é ingratidão
Existe uma confusão perigosa quando o assunto é infância, família e amadurecimento emocional: a ideia de que olhar para o que doeu é um ato de deslealdade. Como se reconhecer uma falta anulasse tudo o que foi dado. Como se curar significasse acusar. Não significa. Curar a própria infância não é negar amor, nem apagarContinuarContinuar lendo “Curar a própria infância não é ingratidão”
O brasileiro que espera um milagre com troco de pão
Conheço gente que joga na loteria todos os dias. Todos. Os. Dias. Gente organizada. Trabalhadora. Gente que paga boleto antes do vencimento e guarda o comprovante numa pastinha. Há anos. Nunca ganhou mais do que o suficiente para pagar outro jogo, é quase poético. A pessoa não ganha dinheiro, ganha continuidade. Se tivesse investido oContinuarContinuar lendo “O brasileiro que espera um milagre com troco de pão”
A geração que aprendeu a sentir cedo demais
Existe uma diferença grande entre ensinar uma criança a sentir e colocá-la cedo demais em contato com emoções que ela ainda não consegue sustentar. A geração que cresce agora não é frágil, ela é exposta. Exposta a informações que não pedem licença, a conversas que não foram feitas para ouvidos infantis, a telas que nãoContinuarContinuar lendo “A geração que aprendeu a sentir cedo demais”
Amar na era do stories: o colapso do encontro
Não é que as pessoas não queiram amar, elas querem sim, desde que não demore, não complique, não exija presença demais e, de preferência, renda boas imagens. Amar virou algo que precisa ser mostrado, sentir já não basta. É preciso registrar, postar, legendar, provar. O amor saiu do espaço íntimo e entrou para a lógicaContinuarContinuar lendo “Amar na era do stories: o colapso do encontro”
O que cada geração fez com a própria dor
Toda geração herda algo que não pediu, nem sempre é uma história contada. Às vezes é um silêncio, às vezes um jeito de reagir, às vezes uma culpa que aparece mesmo quando a intenção era fazer diferente. Tenho pensado muito nisso porque, em mim, a pergunta sempre volta: por que eu faço isso, mesmo sabendo?ContinuarContinuar lendo “O que cada geração fez com a própria dor”
O corpo feminino na história: de sagrado a produto
Houve um tempo em que o corpo feminino não precisava se explicar, ele não era discurso, nem produto, nem estratégia de engajamento. Ele apenas existia, o que, historicamente, sempre foi considerado um exagero. Gerava vida, sangrava, intuía coisas que ninguém sabia medir, assustava e tudo o que assusta precisa ser organizado, moralizado, domesticado. Preferencialmente porContinuarContinuar lendo “O corpo feminino na história: de sagrado a produto”
O mundo adoeceu, mas a consciência ainda respira
Perceber dói e talvez esse seja o preço mais alto de não estar anestesiada. Há momentos em que o mundo parece apodrecer diante dos nossos olhos. Não porque o mal seja novo, ele nunca foi, mas porque, de repente, ele deixa de se esconder. O que estava nos bastidores sobe ao palco. O que eraContinuarContinuar lendo “O mundo adoeceu, mas a consciência ainda respira”
O luxo da impunidade
Há coisas que a gente descobre sem querer. Um link, um documento, uma leitura que começa quase por curiosidade e termina como um rasgo. O problema não é apenas o que está escrito, é o depois. Depois de saber, não dá mais para seguir a vida como se nada tivesse acontecido. Mas também não dáContinuarContinuar lendo “O luxo da impunidade”
All Her Fault: A culpa sempre encontra as mães
A culpa nunca é neutra, ela tem gênero, tem endereço e costuma chegar antes dos fatos. Em All Her Fault, a pergunta nunca é exatamente o que aconteceu. A pergunta real é: onde ela falhou? A maternidade aparece ali não como vínculo, mas como tribunal permanente. Cada gesto da mãe é reinterpretado como erro emContinuarContinuar lendo “All Her Fault: A culpa sempre encontra as mães”
Cansaço, estímulo e a morte da autenticidade
Não é só cansaço, se fosse, dormir resolveria. O que sinto e vejo ao redor, é outra coisa. Uma espécie de saturação silenciosa. Como se tudo estivesse acontecendo o tempo inteiro, mas nada realmente me atravessasse. O corpo segue funcionando, respondendo, cumprindo. Mas a vida… vida passa como se não deixasse marcas. Há sempre algoContinuarContinuar lendo “Cansaço, estímulo e a morte da autenticidade”