
O tempo não é só uma linha reta.
É um novelo — cheio de nós, repetições e voltas no mesmo ponto.
E se há um fio que costura todas as gerações, ele se chama memória.
Mas o que fazemos com ela é que muda com o tempo:
Alguns a silenciam, outros a romantizam. Alguns a reinventam, outros nunca tiveram tempo de criar uma.
A Geração Silenciosa (1928–1945) não tinha espaço para nostalgia.
Cresceram em meio a guerras, escassez e rigidez emocional.
A inovação, para eles, era uma geladeira elétrica.
Memórias? Guardavam dentro, junto com a dor — bem lacrado, sem muito manuseio.
Não falavam do que viveram. E talvez por isso a gente ainda esteja tentando entender o que sentimos.
Os Baby Boomers (1946–1964) nasceram no meio da euforia do pós-guerra.
O mundo prometia: “agora vai dar certo”.
Trabalho era honra. Família era estrutura. Futuro era esperança.
Hoje, vivem uma nostalgia quase institucionalizada: do tempo em que tudo parecia certo, mesmo quando não era.
Eles ainda assistem ao Jornal Nacional, ainda preferem telefone à mensagem, e sentem falta de um mundo que, para eles, era mais confiável.
Inovação, para muitos, virou inimiga da simplicidade.
A Geração X (1965–1980) viveu a transição mais drástica.
Do orelhão ao celular, do LP ao Spotify.
Foram os primeiros filhos de pais separados, os primeiros adolescentes com videocassete.
São discretos na nostalgia: preferem uma trilha sonora dos anos 80 a um discurso saudosista.
A inovação os seduz e os cansa. Ainda duvidam se confiar na tecnologia — ou nela mesma.
Os Millennials (1981–1996) transformaram a nostalgia em identidade.
São os adultos que compram brinquedos de infância no Mercado Livre e criam playlists com “as músicas da 8ª série”.
A internet chegou devagar, como mágica.
Depois, o mundo acelerou — e levou junto o equilíbrio mental.
Eles não têm apenas saudade do que viveram, mas da versão deles mesmos antes da ansiedade generalizada.
A inovação, pra essa geração, é uma faca de dois gumes: liberdade e esgotamento.
A Geração Z (1997–2012) nasceu digital.
Aprenderam a editar vídeos antes de saber editar emoções.
Estão cansados de tanta inovação — mesmo que não saibam viver sem ela.
Curiosamente, abraçaram uma nostalgia que não viveram: câmera analógica, vinil, estética Y2K.
Talvez porque, sem um passado afetivo, o futuro é exaustivo demais.
Ou talvez porque querem pertencer a algo — qualquer coisa — que dure mais de 15 segundos.
A Geração Alfa (2013 em diante) ainda está nascendo.
Mas já se sabe: será a geração que cresce com telas antes das palavras.
A infância deles não tem cheiro de terra, mas de eletrônico novo.
Não há nostalgia — ainda.
Mas talvez haja um vazio onde a memória afetiva costumava morar.
Nostalgia e inovação não são opostos.
São tentativas diferentes de dar conta do tempo.
Enquanto uns tentam segurar o passado com força, outros correm desesperados pra não perder o futuro.
Uns encontram conforto no conhecido.
Outros se agarram ao novo pra fugir do que dói.
Mas o que todos querem — de formas diferentes — é pertencimento.
É sentido.
É tempo.
Tempo para sentir.
Tempo para lembrar.
Tempo para existir.
Porque entre a memória e a invenção, entre o que foi e o que virá,
a maior inovação de todas talvez seja a capacidade de lembrar quem somos — sem nos perder.
-b.monma
Gostei da reflexão, observações bem interessantes sobre como estamos lutando contra nós mesmos.
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Fico muito feliz que tenha gostado! Essa luta interna é real e constante… obrigada por dividir sua leitura comigo 💭
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Well written 💯
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