Entre flores e estatísticas

Ser mulher exige uma certa elasticidade emocional, a gente aprende cedo. Primeiro nos ensinam a ser delicadas, depois a ter personalidade, depois maturidade, depois pedem que a gente não seja tão intensas.

Quando somos jovens dizem que somos dramáticas, aí amadurecemos e dizem que estamos frias, quando falamos com firmeza dizem que estamos bravas.

Existe sempre uma versão ideal de mulher circulando por aí, ela é calma, forte, resolve tudo, entende todo mundo e, claro, faz tudo isso sorrindo.

Muitas mulheres passam metade da vida equilibrando versões de si mesmas que foram exigidas por alguém. A filha exemplar, a profissional competente, a parceira compreensiva, a mulher que dá conta e, mais recentemente, surgiu uma nova função: Performar.

Ser mulher hoje também virou uma espécie de gestão de imagem, existe uma estética para cada emoção: Tristeza elegante, cansaço produtivo, autoconhecimento com filtro bonito. Até o colapso ganhou linguagem própria.

Outro dia li que precisamos ser nossa melhor versão, fiquei pensando quantas versões uma pessoa aguenta sustentar antes de esquecer qual era a original. Porque tem uma hora em que a identidade começa a parecer um currículo emocional.

Empreendedora de si mesma, curadora da própria imagem, diretora de marketing da própria vida e enquanto tudo isso acontece dentro das telas, do lado de fora outra realidade continua acontecendo.

Mulheres desaparecem, são mortas, continuam sendo silenciadas dentro de casas que deveriam ser seguras. Curiosamente, isso também acontece no Dia da Mulher, no mesmo dia em que distribuímos flores.

Existe algo desconfortável nesse contraste, entre homenagens e hashtags, a realidade segue fazendo o que sempre fez: lembrando que para muitas mulheres a luta ainda não é sobre reconhecimento, é sobre sobrevivência.

Nas últimas décadas acreditamos que algumas bandeiras resolveriam tudo que certas teorias protegeriam mulheres. A realidade, como sempre, não assinou esse acordo.

Nenhuma teoria protege uma mulher sozinha numa rua escura, nenhum slogan impede um agressor dentro de casa, nenhuma postagem devolve a vida de quem não voltou.

A vida real não cabe em hashtag.

Por isso cada geração de mulheres lutou por algo diferente. Nossas avós lutaram por espaço dentro de casa, nossas mães lutaram por respeito no trabalho, a minha geração lutou por liberdade e as mais novas parecem lutar por algo ainda mais básico: poder existir sem medo.

O verdadeiro avanço ainda não aconteceu, talvez ele aconteça no dia em que ser mulher não exija coragem constante ou no dia em que não precisarmos criar tantas versões de nós mesmas apenas para atravessar o mundo. Porque, no fundo, a pergunta continua simples.

Entre flores e estatísticas, quantas mulheres ainda precisam morrer para que existir deixe de ser um ato de resistência?

-b.monma

Publicado por Bruna Monma

Escritora e criadora de projetos autorais. Escrevo crônicas, reflexões e narrativas sobre identidade, tempo e o que não cabe em legendas. Acredito na palavra como forma de presença.

Um comentário em “Entre flores e estatísticas

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