A crise de identidade contemporânea

Tenho pensado e estudado muito sobre identidade, não como conceito teórico, desses que a gente lê em livros ou discute em sala de aula, mas como experiência real, aquela que aparece quando a vida fica silenciosa o suficiente para que algumas perguntas difíceis finalmente tenham espaço.

Uma delas tem me acompanhado há algum tempo:

em que momento da vida começamos a nos tornar aquilo que esperam de nós?

Quando eu era mais nova, a sensação era diferente. Eu não pensava muito sobre quem eu deveria ser, eu simplesmente era. Gostava das coisas que gostava, sonhava com o que me encantava, imaginava caminhos inteiros sem me preocupar se eles faziam sentido para o resto do mundo.

SPOILER: em algum momento isso muda.

Não acontece de forma abrupta, nem em um dia específico em que acordamos e decidimos abandonar partes de nós, é um processo bem mais silencioso do que isso.

A gente cresce e crescer, muitas vezes, significa aprender a se adaptar.

Adaptar escolhas, expectativas. Adaptar sonhos.

Sem perceber, começamos a ajustar pequenas coisas aqui e ali até que a vida começa a tomar uma forma muito específica: uma vida que parece fazer sentido para o mundo.

O problema é que, às vezes, ela deixa de fazer sentido para nós.

Durante muito tempo eu mesma senti algo difícil de explicar, não era exatamente infelicidade. Minha vida estava organizada, as coisas caminhavam, os dias eram preenchidos com trabalho, responsabilidades, planos.

Mas existia uma sensação estranha, um vazio, como se alguma coisa estivesse levemente deslocada dentro de mim.

Hoje eu sei, não era uma crise de identidade no sentido mais comum da palavra. Eu sempre soube, no fundo, quem eu era.

O que existia era outra coisa.

Uma distância crescente entre aquilo que eu era por dentro e aquilo que, aos poucos, fui aprendendo que esperavam de mim.

O psiquiatra Carl Jung chamava isso de diferença entre o Self, nossa essência, e a persona, o papel social que aprendemos a desempenhar.

A persona não é um problema, todos nós precisamos dela para viver em sociedade.

O problema começa quando ela se torna tão dominante que a gente começa a viver mais para corresponder às expectativas externas do que para expressar aquilo que realmente somos.

Por isso que tanta gente hoje fala em crise de identidade, já que em algum ponto do caminho, fomos nos adaptando tanto ao mundo que começamos a nos afastar de nós mesmos.

O sociólogo Zygmunt Bauman dizia que vivemos em uma época em que a identidade se tornou algo instável, quase líquido. Somos incentivados o tempo inteiro a nos reinventar, a provar quem somos, a construir versões cada vez mais bem ajustadas de nós mesmos.

Quanto mais tentamos responder à pergunta “quem sou eu”, mais pressionados nos sentimos a corresponder a alguma expectativa.

Talvez seja por isso que tanta gente se sente cansada sem saber exatamente do quê.

Não é apenas o trabalho, nem apenas a rotina. É o peso de tentar viver uma vida que, aos poucos, foi sendo moldada para caber no mundo.

E às vezes, nesse processo de adaptação silenciosa, alguma coisa essencial fica pelo caminho.

Hoje eu tenho a impressão de que a crise de identidade contemporânea não seja apenas uma crise de autoconhecimento e sim, uma crise de distância.

A distância entre quem somos e aquilo que aprendemos que deveríamos ser.

E se isso for verdade, a pergunta mais importante não é simplesmente “quem sou eu?”.

A pergunta é outra.

Qual parte de nós foi ficando pelo caminho enquanto tentávamos corresponder às expectativas do mundo?

(Continua…)

-b.monma

Publicado por Bruna Monma

Escritora e criadora de projetos autorais. Escrevo crônicas, reflexões e narrativas sobre identidade, tempo e o que não cabe em legendas. Acredito na palavra como forma de presença.

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