Eu sempre fui muito eu.
Desde pequena.
Vaidosa, criativa, sentimental. Sempre tive um senso muito claro do que me incomodava e do que fazia sentido pra mim. Nunca gostei de dormir no quarto dos meus pais. Parei de usar fralda muito cedo porque aquilo me incomodava. Quando perdi a chupeta, chorei a noite inteira, mas no dia seguinte, quando ela apareceu, eu simplesmente não quis mais. E nunca mais usei.
Sempre tive essa relação direta com o que eu sentia.
Essa é a Bruna essencial.
Mas crescer também é aprender a viver no mundo e o mundo exige algumas coisas.
A gente aprende a ser mais conveniente, a se adaptar, a ter jogo de cintura, a ter paciência. Aprende a engolir certas coisas pra não machucar ninguém e, de verdade, isso também constrói, fortalece, ensina limites, convivência, maturidade.
Só que existe uma linha muito sutil entre se adaptar e se afastar de si. E quase ninguém percebe quando cruza essa linha, porque não é uma decisão consciente.
Ninguém acorda um dia e pensa: “hoje vou deixar de ser quem eu sou”, é mais silencioso do que isso.
A gente vai ajustando pequenas coisas, vai cedendo em pequenos pontos, vai escolhendo o que é mais fácil, mais aceito, mais conveniente. E, aos poucos, começa a construir uma versão de si mesma que funciona melhor no mundo.
Uma versão mais ajustada, mais previsível, mais confortável para os outros.
O psiquiatra Carl Jung chamava isso de persona, a máscara social que todos nós usamos para viver em sociedade. E a persona não é um problema, a gente precisa dela.
O problema começa quando ela deixa de ser uma máscara e passa a ser a única versão de nós que existe. Porque existe uma diferença gritante entre usar uma máscara e esquecer que ela existe.
Foi isso que eu comecei a perceber em mim. Não de forma teórica, mas sentindo.
Eu percebo que comecei a me afastar de mim quando aquilo que eu fazia deixou de ter propósito. Quando deixou de ter eletricidade. Quando já não despertava em mim vontade de viver mais e melhor.
Não era uma vida errada, mas também não era uma vida viva. E talvez seja isso que mais assusta.
A gente pode passar muito tempo funcionando bem por fora e, ao mesmo tempo, se sentindo cada vez mais distante por dentro.
Hoje eu entendo que esse afastamento não acontece de uma vez, ele se constrói com boas intenções, com justificativas plausíveis, com aquele pensamento de que “não vale a pena criar problema”.
A gente vai silenciando partes.
Uma vontade, uma opinião, um jeito de ser que não encaixa tão bem assim. Até que, um dia, a gente percebe que alguma coisa ficou pelo caminho. E aí vem uma pergunta que, depois que aparece, não dá mais pra ignorar:
qual parte de nós precisamos matar para corresponder às expectativas dos outros?
Porque, no fundo, é isso que acontece.
A gente não deixa de ser quem é de uma vez, a gente vai sacrificando pedaços. No meu caso, eu consigo ver com muita clareza qual foi o pedaço mais silenciado.
A minha liberdade.
Não uma liberdade idealizada, perfeita, sem limites, mas a liberdade real. A liberdade de ser inteira, de escolher com verdade, de viver sem precisar justificar tanto quem eu sou.
E talvez o mais difícil de aceitar seja isso:
o mundo não pede que a gente deixe de ser quem é de forma explícita. Ele só vai, aos poucos, nos mostrando quais versões de nós são mais aceitas e cabe a cada um decidir até onde está disposto a ir nessa adaptação.
O maior problema não é a máscara em si, é quando a gente se adapta tanto que já não sabe mais quem existe por trás dela. Ou pior. Quando a gente para de sentir falta.
– b. monma ✨