O mito da liberdade plena

Eu tenho pensado muito sobre liberdade e talvez essa seja uma das ideias mais bonitas (e mais mal compreendidas) que a gente aprende ao longo da vida.

Durante muito tempo, eu achei que liberdade era um lugar. Um estado. Uma forma de viver onde eu poderia ser totalmente eu, sem limites, sem concessões, sem precisar me adaptar tanto. E, de alguma forma, eu sempre busquei isso. Porque, desde pequena, eu sempre fui muito eu.

Sempre tive clareza do que me incomodava, do que fazia sentido, do que eu queria e do que eu não queria. E talvez por isso a liberdade sempre tenha sido algo tão importante pra mim.

Só que a vida vai acontecendo. E, junto com ela, vêm as responsabilidades, as escolhas, os caminhos que a gente decide seguir.

A gente cresce, amadurece, entende que viver também exige compromisso. Mas, no meio disso, eu comecei a perceber um movimento muito sutil. Eu fui fazendo pequenos acordos comigo mesma.

Nada muito grande ou que parecesse errado. Só escolhas. Escolher o que era mais seguro. O que fazia mais sentido naquele momento. O que mantinha a vida funcionando. E isso funciona, a vida anda, as coisas se organizam. Tudo parece no lugar, mas existe um custo.

Porque, aos poucos, eu fui abrindo mão de pequenas liberdades. Não de forma consciente, mas de forma lógica.

A liberdade tem custo. Ela desorganiza. Ela questiona. Ela exige coragem. E coragem, na vida adulta, nem sempre cabe na rotina. Então a gente ajusta, se adapta, aprende a suportar aquilo que é possível (não necessariamente aquilo que é mais verdadeiro) e, quando percebe, a liberdade já não está mais ali. Ou, pelo menos, não como antes.

E foi aí que eu comecei a questionar outra coisa… talvez a liberdade nunca tenha sido aquilo que eu imaginei, talvez ela nunca tenha sido esse lugar sem limites, sem peso, sem consequência. Talvez a ideia de liberdade plena seja uma fantasia.

Porque a vida sempre teve limites. Sempre teve escolhas. Sempre teve renúncias. Então talvez o ponto não seja que a gente perde a liberdade. Talvez o ponto seja que a gente cresce acreditando em uma ideia de liberdade que nunca existiu de verdade.

E, quando a realidade se impõe, a gente interpreta isso como perda. Mas talvez seja só… contato com o real. Ainda assim, isso não resolve tudo. Porque, mesmo que a liberdade absoluta não exista, existe alguma coisa dentro da gente que reconhece quando está sendo sufocada.

Existe um incômodo. Uma sensação de estar vivendo pela metade. E isso também é real.

Então eu tenho pensado que talvez a liberdade não seja ausência de limites, mas sim o quanto a gente consegue se manter fiel a si mesma dentro dos limites que a vida impõe. O quanto a gente consegue escolher com consciência. O quanto a gente consegue não se abandonar completamente no processo.

Porque, no fim, eu não perdi totalmente a liberdade. Mas eu também nunca fui totalmente livre. E talvez o que exista de verdade esteja no meio disso. E talvez a pergunta não seja se somos livres ou não. Talvez a pergunta seja outra: dentro da vida que eu tenho, quanto de mim ainda está aqui?

-b.monma

Publicado por Bruna Monma

Escritora e criadora de projetos autorais. Escrevo crônicas, reflexões e narrativas sobre identidade, tempo e o que não cabe em legendas. Acredito na palavra como forma de presença.

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